Diário da minha não-gravidez

12 de janeiro de 2011

Querido diário, estou pensando em parar a pílula. Eu e o meu marido estamos juntos há dez anos e casados há quase cinco, acho que já é hora. Tenho conversado muito com a minha terapeuta: como tenho um emprego legal, que me permite fazer umas viagens internacionais incríveis, ando entre a cruz e a espada para tomar esta decisão, visto que fiz 30 anos em outubro, e essa data me fez repensar muitas coisas. No mesmo outubro, me mudei com meu marido para um apartamento maior, com três quartos: o espaço ideal para fazer um quartinho de bebê e também para recebermos nossa família, que mora toda fora. Aliás, o fato da minha família morar toda fora é também algo que me angustia muito. Como vou fazer quando o período de licença-maternidade terminar? Não vejo nenhuma perspectiva de ele durar mais do que quatro meses. Coloco o neném na escolinha? Arrumo uma babá? Minha terapeuta diz que é muito cedo para estas encanações.

09 de fevereiro de 2011

Tive uma conversa séria com meu marido sobre a chegada dos 30 anos. Não quero ser tão mais velha que meus filhos, sempre pensei isso, desde que (literalmente) era criança. Meus planos de infância envolviam ser mãe (de pelo menos um) antes dos 30. E agora eles chegaram. Estamos nós dois em bons empregos, meu casamento vai melhor que nunca, moramos em um apartamento grande. Acho que está mesmo chegando a hora. Falei que me afligia percebê-lo meio reticente em relação a este assunto, trouxemos à tona questões das nossas infâncias, a preocupação financeira – afinal, nem temos casa própria nem sabemos se vamos continuar morando em São Paulo ou não – o medo de não saber distribuir as agendas para os cuidados necessários com a criança. Enfim, esclarecemos tudo o que poderia se tornar um “fantasma” antes da possível gravidez. Agora vai.

16 de março de 2011

Me dei conta que algumas amigas de infância já estão indo para o segundo filho. O segundo!!! Marquei uma consulta na minha gineco e falei que quero parar a pílula. Visto que eu e meu marido concordamos que é hora de programar o baby, vou parar o anticoncepcional sem avisá-lo, assim a gravidez será uma semi-surpresa para ele. Imagina que incrível? Chego com o resultado positivo e ele nem certeza tem de que já estamos de fato tentando. Fiz os primeiros exames e está tudo certo comigo. “Comece a tomar o ácido fólico diariamente e já pode tentar”, me disse a médica.

23 de abril de 2011

Hoje é casamento de uma amiga querida e enfrentamos horas de estrada para chegar até lá. Depois de amanhã é Páscoa, família reunida… é, acho que é uma boa hora para parar a pílula. Além do mais, me disseram por aí que quem para a pílula emagrece. Imagina que maravilha?! Estou no quarto do hotel me arrumando para o casamento e… merda! Veio a minha menstruação! Burra, burra, burra! Quem pode ser tão estúpida a ponto de não saber que quando se para a pílula a menstruação vem imediatamente? Corre pra farmácia, marido desconfia: “absorvente? Ué? Você não sabia que ficaria menstruada hoje? Depois de tantos anos de pílula?”. Errr…. é… sabe como é… (ficando vermelha). “Você parou!”.

É, parei. Parei, meu bem, e vamos aproveitar este mês porque TODO MUNDO DIZ que o primeiro mês pós-pílula é o melhor para se engravidar. Se bem que também TODO MUNDO DIZ que a pílula demora alguns meses para sair completamente do nosso corpo… No domingo de Páscoa, família reunida, eu secretamente emocionada, e minha sobrinha pequena, sem nem desconfiar da nossa situação, chega ao almoço falando: “Hoje eu sonhei com o neném da tia e do tio”. É um sinal. Só pode ser um sinal.

22 de maio de 2011

Não era um sinal. Eu não estou grávida. A minha menstruação nem deu pela falta da pílula: foi mais pontual que um relógio suíço. E trouxe consigo cólica, indisposição e uma leve dose de frustração. É, não foi desta vez. Mas não tem problema, vou pesquisar na internet todas as formas naturais de engravidar mais facilmente. Tenho uma amiga que estava com dificuldade, pediu para a médica uma pílula de hormônio, ovulou duas vezes e pimba! Tava grávida no mês seguinte. É, definitivamente vou falar com a minha médica.

15 de junho de 2011

Esse mês vai! Estou sentindo os seios inchados, a barriga também. Começo a conversar com minhas (dezenas de) amigas grávidas e pergunto quais foram os primeiros sintomas que sentiram. As respostas são as mais variadas: dos básicos “não senti nada nem mesmo depois que vi o resultado, os enjoos começaram cerca de um mês depois” e “ah, meus pés incharam e tive dor de cabeça” ao criativo “eu comecei a sentir cheiro de gente. Algumas amigas, inclusive, até enjoaram do cheiro do próprio marido”. Olho para os meus pés: não incharam. Também não estou sentindo cheiro de gente. Droga!

20 de junho de 2011

Minha menstruação chegou novamente, mais pontual que o Big Ben. No dia e período exato que imaginava que ela chegaria. Bem, pelo menos já posso concluir que meu ciclo é regular, porque a esta altura nenhum vestígio de anticoncepcional se encontra em meu corpo: tenho ciclo de 28 exatos dias, então fica mais fácil calcular os dias férteis. Mas só pra ter uma ideia, né? É muito mais legal quando é natural e tô longe de ser aquelas malucas que ficam dizendo pro marido: vamos! É hoje! Acho esse tipo de pressão nada salutar para o casamento. Sem falar em anti-romântico, quebra-clima etc.

18 de julho de 2011

É, não foi desta vez. Pra piorar, fui à minha gineco, que reiterou que está tudo-bem-obrigada comigo, por via das dúvidas vai pedir mais uns dois exames que não costuma pedir tão cedo para suas pacientes “que estão tentando”, mas disse que um casal NORMAL tem apenas 30% de chances de engravidar por mês. A gente se prende nas histórias de amigas que engravidaram na época da escola e juram que “foi só uma vez” ou em novelas e cinema, em que uma única linda noite de amor resultou em uma bela e saudável gravidez. Na vida real, me prometeu a médica, as chances são realmente baixas. E disse que só me indicaria para um especialista em reprodução depois de DOIS anos tentando.

Saí da consulta entre tranquila (ufa! Somos normais!) e desesperada: será que vou aguentar dois anos? Também aproveitei a consulta para fazer algumas perguntas imprescindíveis: doutora, nas duas semanas que antecedem a minha menstruação devo evitar queijos de leite cru, comida japonesa, steak tartare e pintar os cabelos? Sabe? Essas coisas que grávida não pode fazer? A resposta dela: NÃO! Só se prive depois que confirmar a gravidez. Confesso que a achei meio insensível. Acho que vou continuar evitando sashimis todos os meses enquanto permanecer naqueles 10 dias de dúvida.

10 de agosto de 2011

Tive um jantar de trabalho: no cardápio, pratos com peixe cru e vinho. Ai, meu Deus, esse mês eu acho que estou grávida, e não tive como evitar este jantar. Mal consegui pregar os olhos à noite.

16 de agosto de 2011

Não estou grávida. Será que foi o peixe cru? Uma torta de banana com canela que comi estes dias? Acho que estou pegando pesado na academia. E essa poluição de São Paulo? Não tem saúde que resista. Será que a solução é ir embora?

15 de outubro de 2011

Uma amiga liga para contar a linda notícia: está grávida! Que incrível! Pergunto como foi. “Ah, nem sei, parei de tomar a pílula e quando a menstruação atrasou nem dei bola: achei que estava desregulada. Mas aí atrasou mais uns quatro dias e resolvi fazer o exame”. Ah, tá. E o que você sente? “Nada. Nem parece que estou grávida”. Ah, tá.

12 de novembro de 2011

Minha menstruação veio novamente. Estou ficando muito fragilizada com esta situação e parece que a cada dia no meu Facebook tem pelo menos UMA grávida nova.

02 de dezembro de 2011

Férias. Eeeee! Descanso merecido. Juro para mim mesma: agora você desliga de tudo, descansa, vai pra praia, namora e… engravida.

10 de dezembro de 2011

É, não engravidei. E fiquei menstruada bem no meio das férias. Que óóóóótimo!

Primeiro semestre de 2012

Passo meio ano entre frustrações mensais, horas chorando na terapia, amigas próximas dizendo: “sonhei que você estava grávida” e muitos “nossa, não achei que fosse tão rápido. Ainda mais eu, que sou desregulada, mas já estou no terceiro mês” e vários outros: “fulaninha está falando mamãe, fulaninho está andando, olha que bonitinho!”.

Segundo semestre de 2012

Em outubro, resolvi parar de postergar minhas decisões profissionais por conta da gravidez e trocar de emprego. Não foi uma decisão muito fácil, mas teve um risco calculado e eu pre-ci-so mudar minha rotina. Funcionou, estou satisfeita com meu novo dia-a-dia e, quer saber? Quando recebi o contrato por e-mail, para ler antes de assinar, cheguei a chorar: tenho direito a auxílio-creche. Não é lindo? Certeza que tinha sido por isso que eu ainda não tinha engravidado. Ufa!

Janeiro de 2013

Tive uma oportunidade incrível no trabalho. Vou para a Índia, dá pra acreditar? Vai ser ótimo mudar o foco porque estou entrando em parafuso: em abril completo dois anos tentando e nada!

Abril e maio de 2013

Marquei uma consulta com minha médica que finalmente concordou em me indicar um especialista em reprodução. Fomos ao especialista, que pediu uma quantidade assustadora de exames. Detesto tirar sangue, tenho medo de agulha e pavor de cheiro de hospital. Mas vamos lá.

Junho de 2013

Conversei com algumas pessoas que estão tentando há um bom tempo e elas me disseram que a rotina de exames e laboratórios está só começando e que alguns, inclusive, são bem invasivos. Que medo!

Julho de 2013

Foram-se praticamente dois meses até conseguir agendar, realizar e ter o resultado dos exames. Com toda essa ansiedade, estou começando a ter insônia, coisa que nunca tive. Analisando a pilha de exames que imprimi em casa, o médico tira a conclusão de que está tudo normal comigo e com meu marido. Até que me lembro: ah, doutor! Este aqui eu anotei à mão, porque era só um numerozinho e eu fiquei sem tinta na impressora. Ele se chama “hormônio anti-mulleriano”, mas de acordo com a referência que eles apresentam de parâmetro está tudo bem. O normal para mulheres da minha idade é estar abaixo de 2 e eu estou bem abaixo: com 0,2. É quando ele me olha, sério, e diz: “então vamos ter que correr. Este hormônio, entre outros fatores, também indica a reserva ovariana, ou seja: quantos óvulos ainda te restam. E tua reserva está bem baixa. Na verdade, semelhante a uma mulher em pré-menopausa”. Me desespero e começo a chorar no consultório: “e agora?” E ele me responde: “podemos começar uma inseminação artificial hoje mesmo, você está bem no período correto do ciclo (primeiros dias)”.

Agosto de 2013

Meu marido não quer nem ouvir falar no médico. Achou tudo muito precipitado e prefere procurar outro especialista, que tenha um olhar mais cuidadoso e menos impulsivo. Temos uma amiga que sofreu muito – inclusive fisicamente – com tratamentos radicais, em que o médico tinha pressa em mostrar o resultado, e acabou nunca engravidando… pensando bem, acho que ele tem razão.

Setembro/outubro de 2013

Decidimos raspar todas as economias e fazer um tratamento de fertilização in vitro (aqui no site você vai entender exatamente o que isto significa), que custa por volta de R$20.000. A fertilização tem mais chances de gravidez que a inseminação, a gente toma muita injeção (agulha fina, como de insulina, mas é, sim, injeção) de hormônio na barriga, faz ultrassom dia sim, dia não e vai vendo crescer a angústia – no meu caso, claro – de ter poucos óvulos com tamanho suficiente. “Tudo bem, só precisamos de dois”, me diz meu médico. E foi exatamente o que eu tive: dois óvulos maduros. Meu marido colhe o material e a fertilização é feita em laboratório.

O médico acompanha o desenvolvimento do embrião por três a cinco dias para ver se ele “vinga” e se vale a pena implementá-lo. Vingou! Uma alegria. Meus pais estavam aqui, choramos, rimos, nos abraçando, contando, finalmente com um final feliz… que não aconteceu. Duas semanas depois, faço o exame de sangue e dá negativo. Isto nos abalou profundamente: fizemos tudo da maneira correta, passei dias sem me exercitar, sem levantar peso, um dia inteiro de repouso (o que, na história da minha vida, deve ter acontecido umas três vezes, no máximo), por que, então? POR QUÊ? Misturam-se a sensação de impotência, de frustração, de medo do futuro, de incapacidade, de dor, de desamparo e solidão. E também de revolta: será que eu não mereço ser mãe? Não merecemos ser pais?

Final de 2013

Como o tempo voa! Já é Natal e vamos encontrar a família, desligar um pouco de todo esse assunto. Seria verdade, não fosse a meia dúzia de amigas que me contou estar grávida justamente nesta semana. É, como diria uma música dos anos 80/90, não está sendo fácil…

Março de 2014

Fui demitida. Algo totalmente inesperado e que eu, ingenuamente, achava que nunca aconteceria comigo. Enquanto meu chefe dizia aquelas palavras eu só escutava “enxugando custos” e “nova fase da revista” lá longe, ecoando no meu cérebro, mas, no meu coração eu sentia – olha que louca!: “então é agora. Todo mundo diz que, quando sua vida desanda, você engravida”. Quem sabe era isso que faltava?

Abril de 2014

Viagem marcada e paga, sigo com meu marido rumo a um mês de férias em NY. A esta altura eu já tinha vontade de dar um beliscão e um chute em cada pessoa que me dizia: agora você “desencana”! Ô palavrinha dos infernos. Ninguém que vive um sonho diário e uma frustração mensal há três anos consegue desencanar. Me desculpem, mas se falaram isso pra você, ponho minha mão no fogo como é mentira.

Junho de 2014

Bate o desespero pós-volta das férias e desempregada. Agora realmente era hora de focar na minha carreira. E foi o que eu fiz: me joguei no trabalho e dei um tempo para a questão da gravidez. Mas aquela pulguinha continuava atrás da minha orelha.

Setembro de 2014

Meus pais resolvem nos incentivar em uma nova tentativa de fertilização – e dão o apoio emocional e financeiro necessário para isso. Mas, desta vez, o resultado foi ainda mais dolorido: não tivemos sequer um embrião, pois meus óvulos não amadureceram o suficiente. Muito abalada, começo a sentir um aperto no peito que parece não passar nunca, e me persegue dia e noite. Eu não diria que entrei em depressão – até porque sempre fiz acompanhamento com minha terapeuta de florais. Mas a coisa, definitivamente, não ia bem.

Dezembro de 2014

Meu fim de ano não foi legal. Eu estava triste e qualquer comentário me chateava: do “desencana” ao “quando você for mãe, você vai ver”, passando pelo “é um amor que só mãe sente” e pelo “Deus sabe o que faz”. A neura estava no limite do insuportável e para onde eu olhava, via grávidas: a garçonete do restaurante, a mulher que sentava à mesa ao lado da minha em um café, a nova cliente, a família, as amigas… começo a me sentir muito sozinha – afinal, ninguém próximo a mim e a meu marido havia vivido situação semelhante (ao menos não que soubéssemos ou tivéssemos acompanhado de perto). Ninguém na minha família tinha tido problemas pra engravidar ou passado por gravidez de risco. Só torço para essas festas de final de ano passarem bem rápido.

Começo de 2015

Minha prima querida comenta sobre um médico em que foi sua vizinha, que há anos tentava engravidar: ele pediu exames que nenhum outro especialista havia pedido, tratou-a e ela engravidou! Não tinha nada a perder e estava muito cansada de não ter um diagnóstico. Fui atrás dele.

Primeiro semestre de 2015

Realmente, o dr. Mario foi sensacional: por não ser especializado em reprodução, ele se preocupou em nos dar um diagnóstico e, vou falar para vocês, não ter um diagnóstico era o que mais me angustiava. Eu, honestamente, preferia ter sido “desenganada” (ter tido logo o diagnóstico de infértil, sabe?) a ficar no vácuo, sem ter nem ideia do que estava tirando este sonho de mim. Eu sabia que não adiantava fazer mil FIVs se não soubesse o que acontecia comigo. E começou um novo périplo de exames: para investigar uma possível incompatibilidade minha com meu marido, exame de sangue e ressonância para identificar possível endometriose, qualidade do muco… A única coisa que descobrimos por enquanto é que meu muco não tem muita qualidade para que os espermatozoides se desloquem facilmente.

Setembro de 2015

Neste caso, então, uma inseminação artificial, muito mais barata que a fertilização, resolveria, pois colocaria os espermatozoides já no lugar certinho. Por cerca de R$2.000 e no consultório dele, sem anestesia nem nada, fizemos o procedimento que, aparentemente, seguiu um curso perfeito e ainda, pela primeira vez, me trouxe um sintoma: eu sentia cólica todas as noites, o que pode ser um indício de gravidez – e que, para alguém que se olhava no espelho todos os dias, por anos, tentando encontrar uma alteração no corpo que fosse, para renovar a esperança, foi devastador. Devastador porque teve resultado negativo. Eu estava viajando, acessando uma internet ruim, que caía o tempo todo e, quando consegui finalmente ver no site do laboratório, quase desmaiei. Literalmente. Aquele resultado negativo exauriu as forças que me restavam. Não consigo mesmo explicar a dor daquele momento, mas a sensação era de que o mundo ruía aos meus pés. Quem nunca passou por isso não entende, mas a verdade é que tentar engravidar sem sucesso por muitos anos (a esta altura, 4 anos e meio, já) é como viver um pequeno luto a cada mês. No meu caso, com o fantasma dos óvulos se esgotando, então, o luto nem era tão pequeno assim…

Outubro de 2015

Querido diário, contamos tudo para o médico e ele pensou: “vamos fazer uma biópsia do seu endométrio. É mais invasivo, mas ele pode ter algo que a ressonância não identificou, visto que a princípio, você ‘engravidou’. Só que o embrião não se fixou no útero”. Fiz a biópsia em Curitiba, onde consegui um bom médico pelo meu plano de saúde. Meu endométrio foi diagnosticado como “disfuncional”. Disfuncional, segundo meu médico, significava que eu ainda não tinha endometriose (um dos terrores de quem deseja engravidar, visto que é uma doença silenciosa e que acomete muitas mulheres), mas caminhava para uma. Ele sugeriu, então, um procedimento com anestesia e internação no hospital (na minha cabeça: horror!) para fazer uma aspiração do endométrio. É como se, explicando para leigos, você raspasse a cabeça na esperança de que o novo cabelo nascesse melhor. Será que agora vai?

Novembro de 2015

Compramos nosso primeiro apê. Muitas emoções, mudança, e vida profissional a mil! Será que agora esse bebezinho vem?

Dezembro de 2015

Decidimos esperar as emoções familiares do final do ano passarem para investir (literalmente, mais uma vez, mais de R$2.000 porque, claro, o convênio não cobria) no procedimento.

Janeiro de 2016

Finalmente, agendamos o procedimento. Foi uma internação chatinha em uma maternidade bem conceituada aqui de São Paulo, porque ela estava lotada e não conseguiam nem quarto para mim, nem horário no centro cirúrgico. A cada nova enfermeira que vinha tirar minha pressão ou checar a pulseira com o meu nome, a mesma pergunta: você estava de quantos meses? E a mesma resposta: eu nunca engravidei, esse procedimento de aspiração do endométrio é justamente para isso. Chatinho também foi convencer o anestesista que eu não aceitaria uma anestesia peridural e só faria se fosse com anestesia geral. Meu gineco precisou intervir porque eu estava pronta para armar um barraco. Se tem uma coisa que todos esses anos de médicos, hospitais e exames me ensinaram foi a impor a minha vontade. A paciente sou eu, poxa! Foi tudo tranquilo afinal, como eu queria, só levei uma picadinha na veia e apaguei, mas como tudo aconteceu no final do dia, precisamos dormir no hospital e eu enjoei um bocado na volta da anestesia. Tivemos alta e a orientação do médico foi: vida normal. Procedimento feito, as esperanças se renovam e, para dar uma forcinha à natureza, tomo pelos próximos quatro meses um medicamento que, segundo orientação do meu médico, vai regular o ciclo e também melhorar meu endométrio. E também um estimulante ovariano, por três meses. Vai que?

Abril de 2016

diario- abril-2016 - adoção

As esperanças de engravidar naturalmente se exauriram. À custa de muita meditação, muito choro, muita terapia e muitas conversas com meu marido e nossos pais e irmãos, decidimos adotar. Até porque soubemos que o processo é bem demorado, e se quisermos adotar um bebê – como é nosso sonho – isso deve acontecer dentro de quatro (sim, QUATRO) anos. Vamos atrás de informações para esta nova luta. Conseguimos agendar o “curso para adotantes” obrigatório no Fórum da Vara da Infância e Juventude mais próximo de nosso endereço para daqui a dois meses, apenas.

10 de junho de 2016

diário: adotar ou não adotar?

Querido diário, fizemos o curso de adotantes no fórum que fica perto da nossa casa e ele foi cheio de fortes emoções. Depoimentos de casais que adotaram, histórias muito tristes de maus tratos a crianças, dados da adoção no Brasil, razões para a morosidade do processo, vídeos muito emocionantes, enfim, não foi bolinho nos mantermos firmes e fortes ali, pois tínhamos muito medo de parecer frágeis e despreparados. No final, nos informamos sobre toda a documentação necessária para dar andamento ao processo. Até o final do mês, devemos protocolar tudo no fórum. Estamos esperando apenas um documento.

14 de junho de 2016

Hoje fui ao lançamento do livro “Te amo até a lua”, da querida Ana Davini, que escreveu justamente contando sua experiência com a infertilidade, os tratamentos e o processo de adoção, dando o passo a passo e contando como se sentia. Foi o empurrãozinho que eu precisava para dar vida a este site, que estava na minha cabeça e no meu coração há pelo menos dois anos. Minha intenção aqui é que você se sinta como eu me senti ao conversar com a Ana: menos sozinha e desamparada, me sentindo menos incapaz, triste e solitário nesta batalha que é ser mãe.

16 de junho de 2016 

diario - 16 junho-2016

Confesso que após ler o livro, pensei não ter esgotado todos os exames e todas as chances de ter um diagnóstico e, quem sabe, uma gravidez natural. Talvez a gente procure um novo médico ou mesmo tente mais uma inseminação com este atual. Não sei. Sei que este ainda é um assunto que povoa meus sonhos, meus dias cinzentos, minha TPM, meus olhos toda vez que vejo uma mãe com um bebê no colo, meu espírito sempre que encontro com uma gestante, minha memória sempre que me deparo com uma história difícil de gravidez que deu certo no final. E não sei se isso um dia vai passar, mas a vida se move, como gosta de dizer meu marido, companheiro e amigo para quem, em um dia especialmente difícil, eu cheguei a falar que devíamos nos separar, pois era justo que ele tivesse um filho natural, e eu provavelmente não poderia dar isso a ele.

19 de junho de 2016

Hoje vamos a um grupo de apoio a adotantes e esperamos nos sentir menos sozinhos nesta jornada.

20 de junho de 2016

Sabe o luto? Quando você perde alguém que amava muito e precisa passar por um período de recolhimento, por alguns dias – ou meses ou anos – tentando entender aquela dor, e depois conviver com ela para, por fim, sobreviver apesar dela e seguir em frente? Então, com a impossibilidade de engravidar, ele pode não existir. Isso porque o diagnóstico – bem comum – de “infertilidade sem causa aparente” não dá o ponto final de que você precisa para entender que é hora de desistir e partir para outro momento da sua vida: seja um futuro sem filhos, seja a adoção.
Ontem estivemos pela primeira vez em um grupo de apoio à adoção e a palestra da psicanalista mexeu muito conosco. Ela disse – com boas doses de razão e uma pitada de radicalismo, na nossa opinião – que, enquanto um casal não vence o luto da não-gravidez, sua mente está ocupada pela ausência, e que talvez nessa mente não haja espaço para uma criança adotiva. Desde então, algumas questões não param de martelar a minha cabeça: já superei este luto? Pior: ele sequer começou? Como vou saber que superei? Será que algum dia vou superar? Muitas perguntas, nenhuma resposta…

24 de junho de 2016

Hoje fui encontrar meu marido no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo. Peguei um Uber, e o motorista seguiu o Waze, aplicativo mais usado na cidade, eu arriscaria dizer. Só que já era de noite e o Waze, para escapar do trânsito, nos levou para o meio da Cracolândia. Fiquei com um pouco de medo, é claro, principalmente quando os moradores de rua fecharam a esquina, ali, de pé, fazendo uma fogueira para afastar o frio. Eu nunca tinha visto tão de perto. Foi um choque muito grande ver aquelas pessoas reduzidas ao máximo da miséria e do desespero. Minha sensação nítida é de que só havia corpos, sem alma, ali. E na sequência do breve medo de que eles atacassem o carro veio um turbilhão de pensamentos à minha cabeça: e se meu filho vier dali? Será que eu vou saber conviver com isto? Será que ele terá sequelas físicas? Mentais? Emocionais? E se eu recusar “mãe usuária de craque” na ficha de adoção? Estarei tirando uma chance de uma criança de ter uma infância saudável e uma vida feliz? Sou uma bruxa por considerar esta possibilidade? E o pior dos pensamentos: se eu não engravidei até agora é porque realmente não era para ser, pois estas mulheres que vivem uma vida tão sem perspectiva, saúde, alimento, abrigo, estabilidade emocional etc etc e mais uma leva de eteceteras engravidam não uma, mas segundo dados informais dos fóruns de família, diversas vezes. Vai ver não era para ser mesmo. Está na hora de eu dar um passo adiante.