“Entre a habilitação para adoção e o telefone tocar não são apenas 9 meses e muita coisa acontece”

“Já vou explicando logo de cara que não acredito que adoção seja método para tratar infertilidade. Não, definitivamente não. Também não é prêmio de consolação. É muito além disso. O que me fez decidir escrever esse texto foi uma frase que ouvi no momento mais difícil da minha vida: quem quer ser mãe… é mãe. Então, resolvi deixar meu recadinho para aquelas que, assim como eu, talvez precisem assimilar essa frase também.

A adoção sempre foi vista com muito carinho por mim, nunca foi um tabu. Sempre pensava em um dia seguir esse caminho na formação da minha família, mas confesso que esse assunto é muito leve até que descobrimos que a infertilidade faz parte da nossa história. Quando esse momento acontece, a adoção se torna real e precisa ser avaliada e discutida de forma madura. Foi isso que aconteceu conosco.

Voltando à frase que eu ouvi, (quem quer ser mãe… é mãe) ela foi exclamada por uma psicóloga poucos dias depois de ter perdido meu primeiro filho, Antonio, e meu útero. Eu nem sabia muito bem ainda naquele momento se eu queria continuar viva, imagina ser mãe de alguém. Mas aos poucos essa frase foi tomando meu coração e entendi o peso que ela tinha. Sim, se a minha vontade era realmente ser mãe, precisava entender quais eram as minhas opções.

Bem, o útero de substituição (barriga de aluguel), por uma questão pessoal, nunca foi uma possibilidade para mim. Sabia que essa era uma opção viável, mas não me identificava com ela, então já foi logo descartada. A opção restante era a adoção. Lembram que eu falei que sempre pensei com carinho no assunto? Pois bem, agora ele se tornou ainda mais sério, afinal de contas ter um filho é uma coisa muito séria.

Eu não topo entrar em jogo algum sem conhecer as regras, então fui logo tratando de saber TUDO sobre a adoção. Li dezenas de blogs e livros, frequentei grupo de apoio, conversei com quem adotou, quem foi adotado, li e reli tudo de novo e mais uma vez. Até que, junto com o meu marido, entendemos que essa seria a forma de seguir com a nossa família.

O pré-natal da adoção não é em um consultório médico todo lindo, de cor rosa e azul-bebê. Também não somos mimadas como toda e qualquer gestante. Muito menos ganhamos presentinhos e tapinhas nas costas nos parabenizando. Se esse for o seu objetivo, sério, volte 3 casas e siga outro caminho. Talvez a adoção não seja para você e não tem mal nenhum nisso. É hora de ser maduros e assumir o que estamos ou não dispostos a enfrentar. Como eu sabia que o que eu queria mesmo era ser mãe, e não me importava em ser ou não mimada em uma gestação, segui com a papelada rumo à habilitação para adoção.

Tudo pronto, depois de alguns meses, habilitados para adotar e agora é ‘só’ aguardar o telefone tocar com a notícia mágica: podem vir buscar o filho de vocês. E… final feliz! Só que não. Nesse meio tempo entre a habilitação, que pode ser considerada o positivo da gravidez, e o ‘telefone tocar’, que é o parto, não são apenas 9 meses e muita coisa acontece. A vida segue, vêm os filhos pet, o trabalho, chove, faz calor, você chora, decide que nem quer mais ter filho, os amigos têm filhos, depois outros filhos, você decide que quer ter filho novamente, mais um ano de casado, mais dois, mais três e você já nem sabe mais se um dia essa ligação vai realmente acontecer.

E você não arruma o quartinho, não compra roupinhas, não sabe ou não quer ficar perto de crianças… por vezes você até pensa que deve ser muita falta de sorte mesmo e que o Papai do Céu deve estar de sacanagem.

Como não entro para o jogo sem saber das regras, voltei a elas. Li e reli mais um pouco e entendi que o processo é assim mesmo, que o objetivo é encontrar pais para crianças e não crianças para pais desesperados. Entendem a diferença? Isso me ajudou. Consegui racionalizar, entender o funcionamento das casas de passagem, pensar sobre adoção tardia, rever perfil… Tudo ok, mas o telefone ainda não tocou.

Daí um dia, um dia qualquer, quando você até achava que nem queria mais, que a vida estava boa assim no esquema trabalho, ‘cinema, clube e televisão’, o telefone toca. E aquele monte de incertezas desaparece, dando lugar à maior certeza da vida: eu só quero ser mãe dessa criança”.

 

Greice Bauer, 34 anos, mãe da Maria Luiza, de 10 meses

 

 


5 thoughts on ““Entre a habilitação para adoção e o telefone tocar não são apenas 9 meses e muita coisa acontece”

  1. Sheyla Responder

    Greice, que lindo seu depoimento. Tão agradecida pela sua honesta exposiçao. Eu peço sua licença para compartilhar seu texto no GAA no qual trabalho.
    Sheyla
    Araxá/MG

    1. Pri Portugal Responder

      oi, Sheyla, te coloquei em contato com a Greice por e-mail 😉 Bjinho

  2. Angela Maria souza da Silva Responder

    Meu desejo é adotar um bebê recem nascido ja tenho até os nomes,nomes biblicos

    1. Pri Portugal Responder

      Bom dia, Angela, tudo bem? Seja bem-vinda ao Cadê Meu Neném? Desejo que você se sinta acolhida, de coração. Você já visitou algum grupo de apoio à adoção? Eles podem te dar as informações iniciais e te falar sobre a realidade da adoção no Brasil, para que você esteja bem preparada e informada antes de começar o processo. Eu recomendo. Bjinho, Pri.

  3. […] uma linda história de adoção <3. Quer mais? Leia essa aqui e essa […]... cademeunenem.com.br/milton-nascimento-e-a-adocao

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