“Tinha endometriose severa e como consequência do tratamento perdi os cabelos e engordei 28 quilos. Depois, um cisto no meu ovário se rompeu e quase morri. Meu casamento não aguentou. Agora, estou na fila de adoção”

Desde a minha primeira menstruação, que aconteceu quando eu tinha apenas 11 anos de idade, eu tinha cólicas fortíssimas. Ficava de cama mesmo. Era uma endometriose severa, mas isso sempre foi ignorado por todos os médicos. Uns diziam que era alimentação inadequada, outros achavam que eram os hormônios da idade…

Em 2009, conheci meu ex-marido e já começamos as tentativas de engravidar naturalmente, sem pressa. Em nossa lua-de-mel, eu senti fortes dores abdominais, o que nos levou a pensar numa possível gravidez. Mas, não. Foi nosso primeiro resultado negativo.

As tentativas se seguiram e como nada havia acontecido até o início de 2012, achamos por bem procurar ajuda médica. Encontrei um especialista em fertilização em Curitiba e lá fomos nós em busca da nossa tão sonhada família, que na nossa cabeça teria três filhos. Nessa consulta, o médico nos pediu alguns exames de sangue, espermograma para ele e histerossalpingografia para mim.

Fizemos os exames e estava tudo certo com ambos, apesar da dor terrível do exame ‘de nome complicado’. Ficamos felizes e aliviados e seguimos nas tentativas de forma natural.

Alguns meses depois, já com vários negativos na bagagem, voltamos para novos exames e descobrimos que eu não ovulava. Iniciamos, então, as induções de ovulação e acompanhamento por ecografias transvaginais em dias alternados, para acompanhar a evolução dos folículos. Ao final do ciclo, eu tomava uma injeçãozinha para romper os folículos e partir para o coito programado. A cada mês, uma esperança. A cada mês, uma decepção.

Se eu sentia um enjoo, meu marido logo beijava minha barriga, mas ao fazer o teste, o que recebíamos era sempre um negativo. Isso se seguiu por alguns meses. Enquanto a nossa conta bancária emagrecia, eu engordava na mesma proporção.

Ao insistir com o médico em relação às dores, ele me falou pela primeira vez da endometriose. Disse que só seria possível confirmar com uma videolaparoscopia. O laudo médico trouxe um resultado que eu jamais gostaria  de escutar: eu não poderia mesmo engravidar por causa da tal endometriose severa. Eu tinha no nível 4, o mais grave. Ficamos estarrecidos.

Na mesma ocasião, o médico nos deu outra notícia bombástica:  disse que o meu tratamento começaria imediatamente. O remédio é indicado para quimioterapia de câncer de próstata, mas  também é empregado no tratamento de endometriose severa. Era uma injeção enorme, que deve ser aplicada por um médico, diretamente no umbigo.

Detalhe: cada injeção dessas tem um custo aproximado de R$2.500. O SUS fornece o medicamento, porém é preciso fazer um cadastro e renová-lo a cada novo pedido. Ou seja, o paciente deve tirar o dia para buscar o medicamento na farmácia especial do SUS, com documentos e laudo médico em mãos. Ah, e o isoporzinho com gelo para manter o medicamento na temperatura adequada. Depois de receber o medicamento, deve correr para o médico para a aplicação.

A minha indicação era para fazer isso a cada dois meses, durante um ano e os efeitos colaterais eram pesados. Meus cabelos se reduziram pela metade, minhas sobrancelhas e meus cílios caíram, engordei 28 quilos, já não tinha mais vontade de sair de casa. Quando acabou esse pesadelo, descobrimos que a endometriose severa tinha regredido para o nível 2. A esperança se renovou. Agora era esperar o efeito do remédio sair  do organismo, o que demoraria dez meses, e reiniciar as tentativas.

A essa altura, minhas duas cunhadas tiveram bebê, minha melhor amiga também teve, e nós…nada. A família e os amigos faziam piadas, dizendo para a gente experimentar ‘tirar as roupas’ pro nosso bebê nascer, para ‘praticarmos mais’… e isso era terrível, doía muito.

Nos consultamos com outros dois especialistas de Curitiba. Um deles me encaminhou diretamente para fertilização in vitro na sua própria clínica e o outro me disse que uma gravidez natural no meu caso seria praticamente impossível. Enquanto isso, eu fazia novas videolaparoscopias a cada seis meses. Quando cheguei na quinta, estava exausta e cansada de lutar. Decidimos, então, dar um tempo de tudo. Perdi 15 quilos, meus cabelos voltaram, adotamos um cachorro, mas o casamento estava fragilizado e a situação financeira mais ainda.

Acabei tendo uma ideia ‘brilhante’: decidi, por conta própria, fazer a indução ovulatória em casa, sem contar pro meu marido. Queria surpreendê-lo com uma gravidez.

Mas tudo o que consegui foi criar um cisto gigante no ovário, que eclodiu silenciosamente. Ele me causou uma dor intensa em todo o abdômen e liberou um líquido tóxico que me causou infecção generalizada. Fui internada às pressas, fiz cirurgia de emergência e fiquei por dias em um estado muito grave. Para piorar, meu plano de saúde se recusou a pagar os custos do hospital alegando período de carência.

A esse ponto, meu casamento estava totalmente desgastado. No resultado do último espermograma do meu marido, os espermatozoides estavam praticamente todos mortos. Assim, deixamos de lado a ideia de gerar um filho. E como adoção nunca fez parte dos planos dele, essa acabou sendo a gota d’água para a nossa relação. Acabamos nos divorciando no final do ano passado.

Durante esse período, aprendi várias coisas. Primeiro, que se o amor não é tão forte assim, não vale a pena. Depois, que a endometriose não mata, mas deve ser tratada com muita responsabilidade. Vi que nós, pacientes, somos vistas por muitos médicos como ratos de laboratório, com medicamentos caríssimos que nem eles sabem pra que servem. Também aprendi que automedicação pode pôr a vida da gente em risco.

Hoje, sigo tomando diariamente um remédio em forma de comprimido, que não me causa nenhum efeito colateral. Na verdade, nem lembro que tenho endometriose!

Mas a vida é uma caixinha de surpresas maravilhosa e tudo tem razão de ser. Por uma dessas coincidências (ou não), conheci alguém que também não pode ter filhos, mas deseja muito ser pai. Quem sabe nasce agora uma família com filhos adotados que serão infinitamente amados por nós?

Filhos são filhos, gerados por nós ou não. São anjos de luz colocados em nossas vidas e que nos tornam seres melhores. Continuo na luta pelo meu bebê, só que agora busco em outra fonte: estou na fila da adoção. No dia certo, na hora certa, nós vamos nos encontrar e nos abraçar pra nunca mais soltar! E esse será o dia mais feliz da minha vida!”.

 

 

Patricia, advogada, 37 anos


2 thoughts on ““Tinha endometriose severa e como consequência do tratamento perdi os cabelos e engordei 28 quilos. Depois, um cisto no meu ovário se rompeu e quase morri. Meu casamento não aguentou. Agora, estou na fila de adoção”

  1. TEREZA Responder

    PARABÉNS pelo depoimento, Patrícia. Quantas lições valiosas e maduras você soube colher de toda essa situação. Espero que você seja muito feliz. Ao ler seu depoimento, me lembrei de uma semana em que eu quis tomar os indutores de ovulação por conta própria. Cheguei a comprar o remédio. Coloquei um comprimido na boca mas imediatamente cuspi. Ao ler este depoimento, o alerta fica redobrado.

  2. […] os temores de quem tenta engravidar e não consegue: o de ter uma doença não diagnosticada, o de v... cademeunenem.com.br/vencer-os-seus-medos

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