“Nestes 4 anos tentando engravidar, não sou mais a mesma pessoa. Talvez, aquela pessoa lá do início não poderia ser a mãe da Isabela hoje”

“Minha mãe sempre me ensinou a importância de ser independente. Então, ao contrário das minhas amigas, meu sonho nunca foi casar e ter filhos. Meu objetivo era estudar, me formar e ser bem-sucedida.

Sempre disse que só me casaria se encontrasse alguém que valesse a pena.  Em 2007, aos 28 anos, conheci meu marido. Ele, médico e pragmático, já dizia: ‘a gente não para o tempo, Gi!’. Eu queria viajar, curtir a vida a dois, juntar grana para comprar um apartamento…  Tinha milhares de desejos e a maternidade ainda não estava lá.

Aos 34 anos, o relógio biológico começou a apitar. Tentamos engravidar naturalmente por uns 6 meses e eu pensei: ah, deve ser por todo esse tempo tomando pílula… Meu marido, por conta própria, começou a se investigar. Descobriu uma leve varicocele que poderia dificultar, mas não impedir uma gravidez. Ciente de que uma cirurgia poderia melhorar nossas chances, foi lá e fez.

Mais tempo e… nada! Em 2015, com 36 anos, procuramos um médico especialista em infertilidade. Exames de sangue para ver hormônios? Ok! Histerossalpingografia para avaliar eventuais problemas nas trompas e ovários? Também não tinha nada!

Tentamos um, dois, três ciclos de indução de ovulação. Nada. Até então, eu estava tranquila, mas quando não funcionou, fiquei apreensiva.

Já que as induções não deram certo, era preciso tentar uma inseminação e isso significava uma dose maior de hormônios. Tive muito medo da reação do meu organismo, mas fui. Na primeira tentativa, nada. Na segunda, resultado indeterminado: era gravidez “química”. Eu chorei. Terceira tentativa: nada. 

Eu não me considero frágil e aquele processo me trouxe uma fragilidade com a qual era difícil lidar. Sem falar nas frustrações sucessivas. Você perde a fé. Você se pergunta se todos os resultados negativos não são um sinal do universo de que a maternidade não é pra você. Estaria eu dando murro em ponta de faca? Engraçado que duas grandes amigas passavam pelo mesmo drama e os sentimentos eram muito semelhantes. Choramos e torcemos umas pelas outras. Eu sempre tive o pressentimento de que, quando uma de nós conseguisse, as demais engravidariam.

Já estávamos em 2016 e rumo à fertilização. Mais hormônio, mais medo. No primeiro ciclo, 5 embriões. Transferimos 2. Negativo. Transferimos mais 2. Negativo. Transferimos o último. Negativo novamente. Como não havíamos feito biópsia naqueles 5 embriões, no segundo ciclo o médico sugeriu que fizéssemos. As falhas sucessivas de implantação poderiam ser causadas pela qualidade do embrião.

No segundo ciclo, o médico retirou os óvulos e um dia antes de viajarmos de férias, veio o baque: só tínhamos um embrião bom. Ficamos arrasados. Transferi em dezembro de 2016 e… negativo! Resolvi parar. Não aguentava mais. Minha vida se resumia a injeções, revolta e lágrimas. O sonho da maternidade tinha se transformado em pesadelo. E eu estava virando uma pessoa que não sou: amargurada e com raiva da vida.

Num belo dia, tive um sonho lindo. Meu avô, já falecido, me perguntava: ‘você vai desistir? Você não é assim!’ No dia seguinte, passei a mão no celular e liguei pro médico: estava pronta para mais um ciclo.  Um pouco antes, descobrimos uma leve alteração no meu exame de sangue, que sugeria um processo inflamatório, que não descobrimos o que era. Ainda assim, comecei a tomar corticoide. O choro era de alívio e de apreensão: afinal de contas, por que não engravidamos??? A verdade é que você passa a torcer pra dar alguma coisa errada em qualquer exame. Pelo menos, surge uma explicação!

Conseguimos 4 embriões: um descartado após a biópsia, 2 masculinos e um feminino. Antes de transferir, meu médico pediu que eu fizesse o ERA para avaliar a receptividade do meu endométrio e… surpresa! O dia D da transferência, no meu caso, não era o padrão. Eu precisava de mais um dia de progesterona para o endométrio receber o embrião. Além do corticoide, foi o que fizemos de diferente neste ciclo, depois de quatro anos tentando engravidar.

No dia 07/07/2017, transferimos o sétimo embrião de toda jornada. Dias depois, no que seria o período da nidação, percebi um leve sangramento. Liguei para o meu marido, já imaginando o pior, e ele pediu para eu mandar uma foto. E na hora comemorou: ‘você está grávida!’

Não comemorei. Depois de tantos negativos nesses quatro anos tentando engravidar, aprendi a não ter expectativas. Você cria uma casca e se protege nela. É um misto de esperança e pé no chão. Porque em todas as vezes que recebia um negativo, eu vivia aquela tristeza para ter forças para recomeçar. Apesar de não ter tido nenhuma perda neste processo, a sensação era de luto quando a menstruação descia.

Aguardei o dia do exame de sangue e peguei o resultado quando estava no meu trabalho. Não conseguia acreditar que havia dado positivo. Positivo! Positivo! Positivo! Não tive medo algum depois desse positivo. Aquelas semanas iniciais foram de alegria, e não de apreensão. Aquela história de aguardar as 12 semanas não fazia sentido pra mim, sobretudo porque nós já havíamos esperado anos!

Nestes quatro anos tentando engravidar, não sou mais a mesma pessoa. Talvez, aquela pessoa lá no início não poderia ser a mãe da Isabela hoje. No dia 23 de março de 2018, a Isabela chegou. Em segundos, passou um filme na minha cabeça. Finalmente, meu choro era de alegria. Ainda temos dois embriões masculinos congelados, o que me dá certa tranquilidade para pensar. Papai Domingos está animado para providenciar um irmão para Isabela. Por enquanto, não penso nisso. Quero curtir a dor e a delícia da maternidade sem a pressão de pensar num segundo filho.

Então, meninas, não desistam. E não é só do sonho de ter um filho. Não desistam de quem vocês são. Se está pesado, parem, respirem, chorem e recomecem. Isso se este for seu desejo e não estiver fazendo mal a vocês. Não se culpem. Não se sintam inferiores. Prossigam com a sua vida, com a sua rotina. O mais difícil não são os medicamentos. É ter a resiliência que o processo exige.

Ah, lembra daquelas minhas duas amigas que também estavam tentando engravidar? Conseguiram logo depois de mim!  Quem sabe não chega sua vez?”

 

Giovanna Porchéra, 39 anos, mãe da Isabela, de 4 meses

 


8 thoughts on ““Nestes 4 anos tentando engravidar, não sou mais a mesma pessoa. Talvez, aquela pessoa lá do início não poderia ser a mãe da Isabela hoje”

  1. Catarina Sobral Responder

    Que historia linda que força e perseverança Deus e sua grande sabedoria, lendo sua historia me deu mais uma força para não desistir, como nao sentir tão mal ou não se sentir culpada e inferior, essa luta nao e facil ela e dolorida mais peco a Deus todos os dia força para lutar, ja são 8 anos de luta e dor mais com uma fé que arde no meu coração para ter em meus braços o um presente de Deus.
    Giovanna que Deus abençoe grandemente sua familia .
    Ah, quem sabe nao chegou a minha vez?

    1. Pri Portugal Responder

      Catarina, seja muito bem-vinda ao Cadê e obrigada pelas suas lindas palavras. Vou dividir com a Giovanna. Me conta uma coisa: vc já tem um diagnóstico? Bjinho, Pri

      1. Catarina Sobral Responder

        Oi Pri, Então fiz todos os exames meu marido também, fiz uma histeroscopia cirúrgica a 2 meses atrás e tinha uma pequena má formação no útero graças a Deus já esta em ordem, não foi diagnosticado outro tipo de problema estou na espera do Senhor, mais ja sofri tanto que estou com o coração um pouco gelado se é que você me entende, essa espera de todo mês e tão difícil, Mais vou seguindo firme e forte me agarrando ainda na minha fé e lendo historias lindas de superação obrigada pela atenção.
        Parabéns pelo blog e por acolher com tanto carinhos nos que estamos na espera do nosso milagre.

  2. Raquel Responder

    A data de nascimento da bebê está errada na matéria… Dia 23/08/2018 ainda nem chegou..

    1. Pri Portugal Responder

      Tem razão, menina! Foi 23/03. Vou corrigir. Obrigada. Bjinho

  3. Maria Luiza Petty Responder

    Muito obrigada pelo depoimento. Saiba que aqui, do outro lado da tela, você deu alguma esperança a uma mulher que, depois da 3a FIV negativa, sem um diagnóstico claro está começando a achar que nunca terá filhos biológicos.

    1. Pri Portugal Responder

      oi, Maria, entendo exatamente como vc se sente. Os depoimentos aqui do site são realmente inspiradores e uma das minhas partes favoritas desse projeto que criei com tanto amor.Me conta uma coisa: vc já se consultou com endocrino e com imunologista para ver se eles não fecham seu diagnóstico? Se vc ler o Diário da Minha Não-Gravidez, vai ver que meu caso foi esse 😉 Bjinho, Pri

  4. Maria Luiza Petty Responder

    Olá Pri, obrigada pelo retorno! Quando tinha escrito o comentário anterior tinha 3 negativas na conta, agora são 4. A última com 2 embriões analisados geneticamente e considerados normais. Agora vou em busca de mais respostas e hoje mesmo marquei uma consulta com o Dr. Ricardo Oliveira. Além do seu depoimento, tenho uma amiga que também passou com ele e resolveu o problema que ela tinha de abortos de repetição. Assumo que fui resistente em marcar esta consulta, pois sou da área da saúde e já ouvi bastante que o trabalho dele não tem evidência científica. Mas o fato é que o que eu tenho seguido não tem nos trazido o resultado que tanto desejamos, então resolvi tentar de tudo.

    Li todo o seu diário e dei para o meu marido ler também. Adoramos, rimos e choramos com ele! O diário é maravilhoso e descreve MUITO do que vivemos e sentimos. E é inspirador ver outras pessoas nesta luta que precisamos enfrentar para algo que deveria ser tão simples. Ah! Também lemos o depoimento do seu marido, foi muito legal ter o relato dele, porque eles penam muito também, né?!

    Enfim, espero um dia contar meu final feliz por aqui! Obrigada pelo apoio.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *