Meu final feliz. Ou seria um começo?

Muita gente me perguntava por que eu chamava um teste positivo de gravidez de “final feliz” se a gestação – e a maternidade propriamente dita – mal estava começando. Eu sempre respondia que a notícia da gravidez, para mim, era o final feliz de uma luta que durou sete anos.

A gestação, é claro, seria outra luta e a maternidade, outra. Afinal, nossas lutas servem para lembrar que estamos aqui para crescer e evoluir, e não para permanecermos estagnados no mesmo lugar. Quem decide ser mãe – por vontade mesmo, e não por pressão social ou familiar – sabe que esse é um caminho de aprendizado infinito, a começar pelo entendimento de que nada está nas nossas mãos, nem mesmo engravidar, como já falei algumas vezes aqui.

Engravidar é uma grande vitória para quem tenta há algum tempo – recentemente recebi a notícia de uma leitora de que ela teve seu primeiro positivo em 18 anos de tentativas. Como não comemorar uma coisa dessas? Mas, sim, é o começo de uma trajetória muito mais complexa que comprar roupas e arrumar o quartinho (que, claro, são uma delícia!).

Quando consegui meu positivo, tive muita dúvida se criaria o diário da minha gravidez, já que o Diário da Não-Gravidez, que você encontra clicando aqui, teve seu ponto final quando a gestação começou, oras! Algumas leitoras me pediram, mas optei por não escrever porque achei que ele iria contra o principal motivo de eu criar o site: acolher quem não consegue engravidar sem que essa pessoa, em um dia de muita decepção, entrasse no site e encontrasse um texto sobre uma gestação feliz. Tem dias em que tudo o que a gente quer é passar longe de grávidas felizes e bebês gorduchos. E eu lembro bem desses dias. Preferi manter o Cadê Meu Neném? como um oásis para essas mulheres que queriam se abrigar de sua dor encontrando quem sofresse da mesma ferida ou mesmo descobrindo novos caminhos para sua cura.

gif amigas

Peço desculpas a quem esperava acompanhar narrativas da minha gravidez para saber se toda a luta tinha valido à pena e se seriam 40 semanas de paz e tranquilidade ou de medo – visto que só quem sabe a dificuldade que é engravidar pode entender o pavor que é perder essa alegria e recomeçar da estaca zero. Aqui na seção Depoimentos do site, inclusive, existem algumas histórias bem tristes de perdas espontâneas e até repetidas.

Sou muito grata – e repito isso todos os dias – porque não foi o que aconteceu comigo. Tive uma gestação abençoada e muito serena – e até brinco que tudo que eu tinha para sofrer aconteceu antes. Não tive grandes sintomas quando engravidei, apenas uma cólica que me fazia pensar que a menstruação viria a qualquer momento. Não enjoei um dia sequer, não tive refluxo, azia, dor de cabeça. Nem sofri com sono, irritação ou mau humor. Reagi muito bem às injeções diárias de Clexane – e até aprendi a aplicar de maneira menos dolorida. Acreditem se puderem, minha barriga não tem nenhum roxinho: impressionei até a minha médica com essa façanha.

gif sou perfeita

É claro que contei os dias para o fim do primeiro trimestre – quando as chances de aborto caem bastante – mas, vejam aí a ironia, justamente ao entrar na 13ª semana tive um sangramento. Duas manchas do tamanho da boca de um copo americano estavam sobre o meu lençol quando acordei naquela sexta-feira. Em pânico, conversei com minha médica e meu marido e seguimos para o pronto-socorro. Não era nada. Apenas a posição da placenta, que cobria o colo do útero. Quando ela cresceu e se deslocou, rompeu alguma veia, nos causando esse pavor. Na sexta seguinte ainda tive um pequeno sangramento, suspendi as atividades físicas e foi só.

Semanas depois eu voltava à vida normal: trabalho, yoga, balé+alongamento, caminhadas… Também cuidei muito da alimentação. Cortei o álcool, diminuí glúten e lactose, tudo com muito equilíbrio e sem passar vontades. Inclusive, passei a ser menos xiita e me permitia uma sobremesa durante a semana aqui e ali, coisa que não fazia desde a adolescência. Cuidei, principalmente, do meu emocional. Meditação, algo que eu já praticava e amava, virou minha rotina noturna e garantia de um sono sereno e restaurador. Continuei com a boa e velha (e fundamental) terapia de florais.

Além disso, confiamos plenamente em nossa médica (como contei aqui) e isso nos trouxe segurança. O plano de saúde não cobria as consultas, mas me dei o direito de contar apenas com o mísero reembolso do convênio e ser feliz com uma ótima profissional. Ainda no começo da gestação, quando eu estava muito apreensiva com qualquer sinal e sintoma, ela me disse: “isso vai passar por volta das 22 semanas, quando você começar a sentir ele mexer. Mas você quer deixar de curtir metade da gestação por medo? Quer deixar para ser feliz só depois disso? Nós estamos acompanhando tudo com muito cuidado. Relaxe e comece a ser feliz agora”.

gif feliz

Coloquei na cabeça também que minhas doenças haviam sido diagnosticadas e curadas e que isso era coisa do passado. Agora eu estava grávida e podia me permitir curtir cada segundo dessa nova fase da minha vida. Resultado? Começamos a conversar com o Raul antes mesmo de ele ter nome, colocávamos música para ele ouvir, eu passei a pesquisar tudo o que havia sobre gestação, amamentação, educação, criação de bebês… #sounerdedaí

Viajei quando tive vontade – mesmo algumas pessoas me olhando apreensivas porque “ainda não tinha terminado o primeiro trimestre” ou “viagem internacional com quase 30 semanas?”. Mas decidi me jogar na felicidade – claro, sempre de maneira prudente, com exames super em dia e orientação médica. Foi a melhor coisa que fiz.

Por que estou contando isso agora? Porque provavelmente a essa hora já estarei com meu pequeno-grande-amor nos braços e queria dividir com vocês mais essa lição antes que acabe o ano: infertilidade é triste, te deixa marcas, te faz sentir culpa, fracasso, solidão, medo, incerteza… mas quando ela é tratada e curada, esse capítulo acabou. Vire a página. Encerre o livro. E parta para a próxima aventura emocionante da sua vida. Livre das feridas. Apenas se permitindo ser feliz.

 

 

 

PS: Devo passar um tempinho off em dezembro, meninas, mas o site tem conteúdo suficiente para alimentar as esperanças, as mentes e os corações de vocês – espero. Uma dica: muitos dos e-mails que recebo com dúvidas têm todas as respostas no próprio site, então leiam com calma o Diário (que tem todos os detalhes da minha história) e, então, procurem a lupinha da busca (no computador ela aparece em cima no canto direito e no celular, bem embaixo, logo antes dos comentários) antes de enviar suas questões, pois pode ser que eu demore um pouco mais a responder. Mas não pensem que eu vou deixar vocês. No comecinho do ano que vem estou de volta. Bjinho e, se a gente não se falar, feliz Natal e Ano Novo!


One thought on “Meu final feliz. Ou seria um começo?

  1. Lílian Responder

    Que gravidez maravilhosa, eu senti enjoo por quase 4 meses, depois dele veio e azia que ficou até depois do parto! Preciso da técnica das injeções de enoxaparina sem roxos. Que a maternidade seja uma grata e feliz realização, para mim não há função/papel/missão/trabalho mais importante que ajudar a criar (formar) um ser humano, sei que que nas mãos de vocês Raul será uma pessoa boa para esse mundão louco. Feliz, muito feliz por vocês! <3 :-*

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