Ovodoação é mais simples que parece e pode salvar quem tem poucos óvulos

Ovodoação? Sim! Toda mulher que deseja engravidar tem uma bomba-relógio nos ovários. Isso porque, como já contei aqui, a mulher nasce com um estoque limitado de óvulos e eles simplesmente acabam com a chegada da menopausa. Sabemos disso: temos um prazo limite para a produção de óvulos e esse prazo varia de mulher para mulher. Em algumas, chega perto dos 40 anos – no caso da assustadora menopausa precoce.

“Mas, então, se eu cheguei na menopausa não posso mais engravidar???” Não é bem assim, como também expliquei aqui, mas seus filhos não virão de um óvulo seu. Parece um tabu, parece supercomplicado, eu sei, mas recorrer à doação de óvulos – a ovodoação – é algo cada vez mais simples e acessível (menos em termos de $$$, infelizmente).

Foi acompanhando grupos de Facebook sobre fertilização in vitro e conversando com meus médicos que fui percebendo que a ovodoação é uma prática que está se tornando comum e pode, sim, ajudar quem tem poucos óvulos a engravidar. E mais: pode ajudar quem tem menos grana a fazer um tratamento de fertilidade. Para explicar melhor, eu conversei com o dr. João Antonio Dias Jr, médico especialista em reprodução assistida, responsável técnico pelo laboratório de reprodução humana do hospital Sírio Libanês e coordenador clínico da Clínica InVida, que, por acaso, foi quem fez minha FIV 😉

 

Tudo o que você precisa saber sobre ovodoação

Cadê Meu Neném?: Desde quando é permitida a ovodoação no Brasil?

João Antonio Dias Jr: Trabalho com reprodução há 20 anos e já existia quando comecei. O que aconteceu foi que as regulamentações foram ficando mais claras com o passar do tempo, assim como os limites legais para doar e receber.

 

Cadê Meu Neném?: Quem pode doar?

João Antonio Dias Jr: O perfil é de uma mulher sadia, com menos de 35 anos, que vai ser submetida a uma série de exames que atestem que ela possa doar. Fazemos, por exemplo, exames infecciosos que constatem que ela não tem risco de transmitir doenças aos óvulos. Também fazemos uma avaliação clínica criteriosa para afastar situações de risco de transmissão genética. Normalmente não será escolhida uma mulher que teve endometriose, ou que tem antimulleriano baixo ou que tenha perdido um ovário. São critérios clínicos, porque se ela produzir poucos óvulos, as chances de uma ovodoação dar certo são poucos.

 

Cadê Meu Neném?: Quantos óvulos a doadora precisaria produzir para dar certo?

João Antonio Dias Jr: Para a ovodoação ser considerada bem-sucedida, não temos números claros, mas o ideal é que doadora e receptora tenham por volta de 8 óvulos cada uma. A expectativa é que a receptora obtenha pelo menos 6 óvulos para ter chance efetiva de gravidez.

 

Cadê Meu Neném?: O tratamento sai de graça para a doadora?

João Antonio Dias Jr: Existem das situações. A primeira é a ovodoação compartilhada: a mulher precisa engravidar e não consegue por fator masculino ou de trompas. Como não tem condições de arcar com o tratamento, eles têm parte do tratamento custeada pela receptora. Essa “parte” que é custeada depende da clínica: pode ser o tratamento, pode ser os medicamentos. Metade dos oócitos fica para a doadora e metade para a receptora, mas a doadora tem preferência sobre o material – se for um número ímpar de óvulos, ela fica com o maior número. E ela ainda pode desistir ao final, só que nesse caso ela custeia o tratamento e não doa seus óvulos. A segunda situação é a da doação espontânea: a mulher quer doar seus óvulos congelados excedentes. Nesse caso, ela não pode ter nenhum ganho financeiro com isso.

 

Cadê Meu Neném?: Quem pode receber a ovodoação?

João Antonio Dias Jr: A receptora tem que ter uma condição clínica que permita, ou seja, em que a gravidez não vá gerar fator de risco pra ela. De resto, não há problemas. Existia uma resolução do conselho de Medicina, por exemplo, dizendo que mulheres com mais de 50 anos não podiam receber. Mas foi polêmico porque tem muita mulher com uma saúde ótima aos 50. É preciso fazer uma análise clínica.

 

Cadê eu Neném?: Qual o perfil das mulheres que desejam receber óvulos?

João Antonio Dias Jr: O caso mais comum é a mulher que teve falência ovariana precoce e a única solução para ela gestar é recebendo ovodoação. Outra situação que acontece bastante: a idade avançada. Uma mulher de 45 anos que tenha óvulos, mas já tenha tentado três tratamentos sem sucesso pode ter óvulos de má qualidade. Outro caso: quando a paciente fez quimioterapia ou radioterapia pélvica e entrou em falência ovariana.

 

Cadê Meu Neném?: Como são escolhidos os óvulos? Existe um banco anônimo, como o de esperma?

João Antonio Dias Jr: É parecido, mas cada clínica tem um modelo. Habitualmente o médico analisa a receptora e vai até o banco de dados das doadoras para ver a maior semelhança fenotípica (cor de pele, olhos e tipagem sanguínea) e, então, selecionar. Em algumas clínicas a pessoa tem acesso a fotos da doadora quando era muito jovem. Assim, ela pode visualizar para se sentir mais segura.

 

Cadê Meu Neném?: Irmãs, primas ou amigas podem doar?

João Antonio Dias Jr: Não. A condição do Conselho Federal de Medicina é anonimato. Essa é a lei brasileira.

 

Cadê Meu Neném?: O útero também empresta material genético ou todo material genético do bebê vem do óvulo e do espermatozoide?

João Antonio Dias Jr: Existe um conceito chamado epigenética: é um fenômeno que fala sobre o controle do ambiente sobre a expressão gênica. A árvore que você planta em São Paulo cresce de um jeito diferente de uma árvore que você planta em Goiânia. Ou seja, mesmo recebendo óvulo com carga genética diferente, o ambiente vai fazer aquela carga genética se expressar. Mas é importante destacar que o DNA vem do óvulo. A aparência das crianças depende de muitos fatores, então pode – ou não – vir com a cara da mãe receptora. E ela receptora precisa aceitar isso. Até porque tem mais coisa envolvida e o processo em si é bonito: a ovodoação compartilhada, principalmente, trata de duas famílias que estão se ajudando sem mesmo se conhecer.

 

Serviço:

post 77 - ovodoação - dr Joao Dias

Dr. João Dias Jr

Clínica Invida. Clique aqui para visitar o site dele.

 

Fotos: Flickr/ JULIE e divulgação


2 thoughts on “Ovodoação é mais simples que parece e pode salvar quem tem poucos óvulos

  1. Danusa Responder

    Como é bom pode contar com conteúdos tão fundamentados e esclarecedores! O cadê meu neném é sem duvida o melhor site para tentantes!!!!
    Parabéns pela competência, e muito obrigada!

    1. Pri Portugal Responder

      <3 eu que agradeço seu comentário, Danusa. Bjinho, Pri

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