A última injeção de enoxaparina

Lembro exatamente o que senti quando o meu médico (leia a entrevista com ele aqui), em posse do diagnóstico de trombofilia, me disse que eu precisaria tomar uma injeção de enoxaparina sódica diariamente até o dia do parto. Na hora, pensei: “ferrou. Não vou conseguir. Tenho medo de vacina, de tirar sangue, de qualquer coisa que tenha um objeto pontiagudo envolvido. Não tenho piercing nem tattoo, não faço tratamentos estéticos que envolvam agulhas e até a acupuntura me assustava. Não vai dar, sinto muito”.

Chegando em casa, depois de chorar muito e me perguntar “por que eu???”, procurei uma amiga que – eu sabia – tinha passado por isso. Aliás, leia o depoimento dela aqui, é lindo! Ela me gravou uma mensagem de voz dizendo: “Pri, não vou falar que é gostoso, mas acaba virando um hábito, como escovar os dentes”. E, por incrível que pareça, foi o que aconteceu.

Uma semana depois, encontrei um casal de amigos em uma festa junina e ele, que aplica injeções de insulina devido a uma diabetes diagnosticada desde a infância, me deu uma dica simples, mas que mudou tudo também: “encoste a agulha em um ponto e tente aplicar. Se ‘der um ruim’, não force. Procure outro ponto”. Incrível, mas essa percepção tão subjetiva da dor foi fundamental para que minha barriga passasse por esse ano e meio praticamente sem nenhum roxinho. Nem mesmo minha obstetra acreditava!

Some-se a isso as instruções das enfermeiras que acompanharam minha fertilização e ensinaram a aplicar as injeções de hormônio do tratamento (como a de beliscar a parte mais gordinha da barriga para aplicar) e minhas deduções muito particulares e eu fui sobrevivendo. Quer exemplos? Eu beliscava forte a pele e aplicava a enoxaparina bem no meio desse pedaço de pele, assim, meu corpo ‘confundia’ as dores da picada e a dos beliscões. Também sabia que o processo de passar álcool com algodão na pele antes de aplicar me dava engulhos, pois lembrava o mal estar que sempre senti ao tirar o sangue. Portanto, deixava para aplicar a enoxaparina logo que saía do banho e a pele estava bem limpa, dispensando o uso do álcool.

Até que, no final da gestação, ao rever meus exames e responder a uma dúvida minha, depois de conversar com umas amigas que têm trombofilia também, minha obstetra concluiu: eu não poderia parar no dia do parto, mas deveria continuar até o fim da quarentena (ou seja, mais 40 dias em relação ao previsto). Parece bobo, mas eu chorei novamente. Fiquei decepcionada que aquela, que eu achava ser a última caixinha de medicamento, ainda não era a última. Ainda havia mais um obstáculo, mais uns dias pela frente para continuar vencendo meu medo.

E por que estou contando isso para vocês agora? Porque achei esse post com cara de virada de ano, em que ciclos se encerram, a gente faz promessas e sonha e, principalmente, se enche de energia para vencer os obstáculos que virão. E também porque daqui a pouquinho eu vou aplicar a última injeção de enoxaparina. Eu não contei quantas foram e tampouco vou fazer uma foto do meu bebê rodeado de seringas, porque essa não é minha vibe. Mas vou guardar a última. Ainda não sei onde, mas será em algum lugar a que eu possa recorrer facilmente sempre que precise me lembrar que sou muito mais forte que poderia imaginar.

O que desejo para vocês, meninas, é um novo ano de fé e força, porque elas existem dentro da gente e, por mais que estejam bem escondidinhas, costumam brotar quando mais precisamos. Podem acreditar. E um feliz 2019!

 

Foto: Flickr/ FolsomNatural

 


2 thoughts on “A última injeção de enoxaparina

  1. Ana Rita Responder

    Oi!
    Estava à procura de um grupo de partilha de experiências, uma maneira de ler o que outras escrevem que seja o mesmo pelo que estou a passar.
    É uma caminhada árdua e solitária…cheia de dúvidas e angústias…de gerir expectativas, de superar desilusões e de voltar a ir à luta.
    Obrigada pela partilha. Bom ano de 2019. Bjinho

    1. Pri Portugal Responder

      Oi, Ana, seja bem-vinda ao Cadê Meu Neném? Fico contente que tenha se sentido acolhida por aqui. Não é fácil, mas fica mais leve qd vemos que não estamos sós… conte comigo. Bjinho

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