A expectativa nossa de cada dia: pequeno manual de como lidar

Esses dias, perguntei lá no insta do Cadê sobre quais assuntos vocês querem ler aqui e uma das respostas foi: como lidar com tanta expectativa? Fiquei aqui pensando em como responder essa pergunta. Vejo que cada pessoa tem seu jeito de lidar e eu só consigo responder dividindo o meu jeito.

Então, vamos começar pelo começo. Tem uma frase de que gosto muito que diz assim: não tente acalmar a tempestade. Acalme a si mesma, a tempestade vai passar. Acho que o primeiro passo, então, é entender que tem coisas que não estão nas nossas mãos. Não podemos controlar tudo. Pra ser bem sincera, cada vez mais eu acredito que não podemos controlar quase nada. Desculpa desapontar a controladora que existe em você. A que habita em mim está lutando há anos pra entender e processar isso, mas, sim, é verdade.

Calma. A gente controla, sim, cuidar da saúde (diminuir álcool, glúten, gordura, açúcar, ter uma vida ativa), escolher um bom médico, se informar bastante antes de ir nesse médico e prestar atenção a todos os sinais do nosso corpo. A gente controla, sim, as escolhas profissionais e de vida que faz. Mas o resultado dessas escolhas, não. O imponderável, não. As tragédias, não. Questões de saúde sem cura ou até explicação, não.

Primeira expectativa

E é aí, no mistério que envolve a famosa pergunta “mas por que eu não engravido?”, que começa a primeira expectativa. Como eu lidei com isso? Procurando incansavelmente informações (que eu dividi aqui, aliás), buscando oito médicos diferentes, caçando com unhas e dentes o meu diagnóstico. Em resumo, saber que eu não estava parada, que eu estava fazendo algo de certa forma me acalmava. Claro que a cada “vocês não têm nada” que ouvíamos, era um balde de água fria, sim. Chegou um ponto, como contei lá na série do Fantástico, em que a gente queria mais ter um diagnóstico que engravidar.

Encontramos um médico de que gostamos. Por que gostamos dele? Era super atualizado. Era muito bem informado. Ouviu a gente (eu e meu marido). Era humano – contou sobre a filha dele, por exemplo. Era seguro. Tinha uma visão global da minha saúde. E mais uma empatia que precisa existir entre médico e paciente. Sabe aquela pulguinha atrás da orelha que você sente quando está diante daquele médico bambambam? Daquela referência do Instagram? Então, escute a pulguinha.

Segunda expectativa

Aí começou a segunda expectativa: seguir um tratamento inédito para nós, apesar de alguns outros médicos desacreditarem dos resultados e de nós mesmos já termos gastado muita energia e grana naquele ponto, portanto estarmos mais céticos. Como eu lidei com isso? Depois de seis anos tentando e pulando de consultório em consultório, decidi que seria a última tentativa. Mas que seguiria tudo o que o dr. Ricardo indicasse. E segui.

Fechei meus ouvidos para críticas externas e ouvi só meu coração. O tratamento era dolorido: intervenção cirúrgica no endométrio, injeção na barriga todos os dias, aplicação de um medicamento na veia, durante duas horas na clínica a cada dois meses. Tudo isso correndo contra o relógio, pois meu hormônio anti-mulleriano era 0,35. Nos demos seis meses para tentar naturalmente e, se não rolasse, partiríamos para uma terceira FIV.

Terceira expectativa

Como vocês podem imaginar, a chegada da menstruação a cada um desses seis meses acabou com a minha terceira expectativa. Como eu lidei com isso?  Sabia que não tinha muito como resolver e que tinha data para acabar. Esse prazo que nos demos foi o que me acalmou.

Quarta expectativa

Cheguei à FIV com um nó no estômago e outro na garganta e começou para nós, então, a quarta expectativa. Como lidei com isso? Fazendo um plano de ação. Eu devo ter guardado ainda em algum lugar aquele pedaço de papel em que eu e meu marido fizemos uma árvore de decisões, sempre considerando o pior cenário e nos preparando para isso. Tentativa 1: sem óvulos -> Tentativa 2: negativo -> Tentativa 3: negativo -> Tailândia. Pode rir. Foi isso que pensamos. Se der m., vamos fazer uma viagem louca pela Tailândia, como se fôssemos adolescentes e não houvesse amanhã. Porque mesmo se desse muito errado, a gente teria alguma “recompensa” no final.

É um super privilégio ter todas essas possibilidades, que custam MUITA grana? Sim, tenho consciência. Mas fazer um plano de ação, pensar em planos B, C e D é uma ferramenta ao alcance de qualquer um, por isso divido aqui. Pra mim, especialmente, esse plano foi importante por duas razões: 1. Até então eu não tinha feito dois tratamentos na sequência: das outras vezes levei cerca de um ano para me recuperar entre um negativo e outro tratamento. Esse plano me deixava pronta pra emendar uma FIV na outra. 2. A primeira FIV foi feita com muito mais leveza, pois era apenas o primeiro passo de um caminho que seguiríamos.

Quinta expectativa

E aconteceu que só tive dois óvulos e só um embrião que chegou ao quinto dia. Esses cinco dias formaram minha quinta expectativa. Uma das mais difíceis. A cada ligação do laboratório, eu sentia meu coração pular na garganta. Quando a embriologista me ligou para falar que o segundo embrião não tinha evoluído, lembro que chorei na academia do prédio, na frente da minha professora de balé. Como lidei com isso? Não lidei. Foram dias difíceis, de lágrimas orações, insônia. Mas ela durou 5 dias, então fazia parte do jogo.

Sexta expectativa

E aí veio a transferência e a espera para o dia do beta. Era a sexta expectativa. Como já comentei, foi abrandada pelo fato de saber que, se fosse o caso, teria outras duas FIVs pela frente. Mas não menos aflitiva. Por muita sorte, nessa época, eu estava alocada em uma agência com pessoas que adoro em um job. Então, como lidei com a angústia da espera pelo beta? Trabalhando. Muito. A gente ficava até de madrugada e era uma equipe muito maravilhosa, que fez tudo ficar mais leve. Literalmente sobrava pouco tempo para eu pensar.

Sétima expectativa

Chegou o dia e a expectativa de toda a família, que vou chamar aqui de sétima expectativa. Como lidei com isso? Fizemos o exame bem cedinho do sábado e conseguimos pedir o resultado para o mesmo dia. Avisamos a família que só viria segunda-feira, assim teríamos tempo para processar tudo. Saímos do laboratório e fomos tomar café-da-manhã em um lugar bem gostoso. Os pequenos prazeres são um escape maravilhoso para desligarmos de nossas expectativas.

Em casa, juntos, tremendo diante do computador, vimos o resultado inacreditável. Ligamos no laboratório, mandamos pro gineco que fez a FIV e só choramos mesmo quando ambos confirmaram que era um positivo. Então, fizemos um filminho, como já contei aqui, para mandar para a família.

Novas expectativas e uma lição

Foi aí que começou um universo de novas expectativas. Como já tinha recebido muitos depoimentos aqui no site, sabia de muita coisa triste que poderia acontecer no começo da gestação, então foi um grande exercício de entender que cada uma tem sua história e a minha era só minha, de mais ninguém. Veio a expectativa do segundo beta. E do primeiro ultrassom. E do segundo. E de sentir o bebê se mexer. Isso seria assunto para outro site, eu sei, mas queria terminar falando sobre uma lição sobre como lidar com as expectativas que tive com minha querida obstetra, dra. Andrea Grieco. Quando, pela terceira vez, eu perguntei quando sentiria o bebê mexer e disse pra ela que só conseguiria relaxar depois disso, ela me disse: “você só vai sentir isso lá pela 20ª semana. Então, você está me dizendo que vai deixar de curtir com leveza metade da tua tão sonhada gestação?”. Eu trago isso pra vida. As expectativas existem e a ansiedade está pulsando na nossa alma em todo o processo de tentar engravidar – e depois nos acompanha por toda a maternidade #SPOILER – mas elas não podem ofuscar o brilho de tudo o que vivemos de belo.

Afinal, como diz uma frase de John Lennon na música que escolhemos para o Raul nascer: a vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos…

Foto: Flickr/ Ivan Svatko


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