“Lembro de cada segundo do meu aborto espontâneo. Foram contrações sem parto, sem filho”

3 semanas e 5 dias. Esse foi o tempo que minha primeira gestação durou para mim e para meu marido. Não estávamos propriamente planejando engravidar, mas também não estávamos evitando e, quando descobrimos, depois do susto a felicidade tomou conta da gente. 

Queríamos sair contando para todo mundo, mas, já na primeira consulta com o médico, ele foi enfático em reforçar as estatísticas de possibilidade de aborto espontâneo nas 12 primeiras semanas. Ele disse que seria importante esperarmos o primeiro ultrassom, com registro de batimento cardíaco, antes de compartilhar, mesmo com as pessoas mais próximas.

Seguimos o ‘protocolo’. Aquela semana foi a mais longa de todas e também a mais feliz. A novidade nos completou de tal forma que, sinceramente, sem chance de explicar.

No primeiro ultrassom, constatamos o tempo gestacional de 5 semanas e 3 dias e, alegria!, batimentos cardíacos. Foi uma alegria sem fim ouvir aquele som e imaginar todas as coisas que viveríamos com aquele ser até sabe-se lá quando. Com exame em mãos, chegou a hora de contar para os mais próximos. Pai, mãe, tios e amigos muito próximos. Estávamos de férias e aproveitamos para curtir muito o momento e descansar, com a expectativa de tudo o que viria a partir daí.

Como meu pré-natal só começaria oficialmente depois das férias, aguardamos o retorno a São Paulo para seguir com tudo e, aí sim, começar a compartilhar a novidade com mais pessoas. Naquela ocasião, li um texto lindo – não me lembro onde – que faz uma reflexão sobre essa questão de compartilhar ou não a notícia antes das fatídicas 12 semanas. Conversamos sobre isso entre nós e concluímos que sim, íamos compartilhar. Independentemente de como seguiria, queríamos compartilhar essa alegria com todos o quanto antes. Para isso, só faltava eu formalizar no meu trabalho, antes de seguir com a notícia aos quatro ventos. Feito isso, tudo certo!

No mesmo dia em que comuniquei no trabalho, no meio da tarde, senti fortes cólicas e constatei um sangramento, que eu sabia que não era normal. Saí do escritório a caminho de casa, conforme orientação médica. Mas a dor não me deixou seguir. Eu sabia que havia algo muito errado.

Decidi alterar o trajeto para o hospital. Foi lá que, a cada etapa percorrida, constatamos o inevitável aborto espontâneo de um embrião com oito semanas e dois dias. 

Foi quando começou uma nova etapa, chocante por diversos motivos. Ao começar pelo que menos se imagina em uma situação destas: nem hospital, nem médico, nem enfermeiro, nem ninguém (mesmo!) sabe lidar com isto. E eu descobri da pior forma, ou seja, vivendo, que um tabu gigantesco cerca essa situação.

O que vivi nas horas seguintes para a expulsão do embrião foi terrível. Lembro de cada segundo e tenho cenas em mente que não gostaria de ter. Contrações sem parto, sem filho. É assim, mas ninguém te fala que vai ser assim. Pelo contrário. É simplesmente um ‘vai pra casa e espera’. Como se fosse tão simples.

Seguiram-se dias de luto. Perdemos nosso filho e tínhamos que contar para todos os que sabiam. Parte dolorosa que fizemos aos poucos, porque relembrar tudo trazia a dor de volta. 

Depois disso, mais luto. Fiquei indignada com a total falta de sensibilidade na realização dos exames após o aborto espontâneo. Detalhe: em laboratórios e instituições que deveriam saber lidar com uma situação tão comum – segundo a tal estatística – e não sabem. Dor, muita dor, fraqueza, cansaço. Só mesmo contando com um parceiro que compartilhe a nossa dor e com o seu apoio para seguir em frente.

Os mais próximos compartilham do sofrimento, tentam dar colo, mas sabem que tem coisa que não tem solução. Talvez se o tabu fosse menor, esse processo fosse mais fácil para eles também. E é por isso que decidi abrir assim a minha história. Gostaria de ter sabido mais sobre essa estatística antes de fazer parte dela, mesmo que fosse por histórias compartilhadas por amigas, conhecidas e outras mulheres comuns. Não teria me sentido tão só.

Apesar de cada momento como este ser único – e entendo que as dores de cada um podem cercar a decisão de não falar sobre o tema –, acredito que quanto mais se falar, mais casais se sentirão abraçados e normais diante de uma realidade fisiológica da qual não temos controle algum.

Por aqui, o que ainda existe é dor, saudade do que não vivemos e de tudo o que planejamos. Seguimos um dia após o outro, dias mais fáceis, outros nem tanto”.

Thais Vallim, 37 anos


2 thoughts on ““Lembro de cada segundo do meu aborto espontâneo. Foram contrações sem parto, sem filho”

  1. Liliane Responder

    Sinta-se abraçada, querida Thais. Você não está sozinha. ❤️

    1. Pri Portugal Responder

      <3 Liliane, sua linda. Muito amor pra vc.

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