“Eu tinha endometriose e cistos no ovário. Meu marido, ausência de espermatozoides. Acabamos adotando 4 crianças”

“Eu tinha endometriose e cistos no ovário. Cheguei a fazer várias cirurgias para retirar e cauterizar os cistos, mas os médicos diziam que o tratamento seria engravidar. Meu marido nunca tinha investigado sua produção de espermatozoides, mas não imaginamos que seria um problema.Ainda namorávamos havia pouco tempo e antecipamos o casamento porque resolvemos tentar. Como sou enfermeira especializada em obstetrícia, meu universo era de gestantes e mães. E o sonho de engravidar – que tinha desde criança – só aumentou.

Faltando uns dois meses para o nosso casamento, fui à minha ginecologista. Contei que não queria nem tomar anticoncepcional e ela pediu todos os exames para mim e para o meu esposo. De repente, meus sogros vieram do interior para São Paulo, assim, no meio da semana. Achei estranho e perguntei para o meu noivo a razão. Ele disse que não era nada, mas eu percebia que ele andava triste, emagrecendo. Um dia, eu estava tomando banho e tive uma intuição. Então, perguntei: ‘o que tem de errado nos seus exames?’. Ele me disse que tinha tido o diagnóstico de azoospermia, ou ausência de produção de espermatozoides, e que não poderia ser pai de jeito nenhum. Na hora, eu enlouqueci: estava a dois meses do casamento! Pensei até em desistir e passei aquela noite toda chorando e rezando.

De manhã, tocou o interfone no meu apartamento e era o primeiro presente de casamento chegando. Era um jogo de taças maravilhoso, eu nunca vou esquecer. Aquilo mexeu muito comigo e pensei: ‘não estou casando com ele pelos espermatozoides ou para ter um reprodutor’. Mas era óbvio que eu queria ser mãe. Pensei muito, conversei com a minha mãe e resolvi ligar para ele, dizendo que já havia separado um espaço no meu guarda-roupa para suas coisas. A gente se abraçou e chorou. Eu não queria contar para ninguém e a gente se sentiu as últimas pessoas do universo.

Depois disso, quis ir ao médico com ele para entender qual era o problema. Ele tem uma azoospermia obstrutiva, ou seja, não vem nenhum espermatozoide na ejaculação. Descobrimos que tinha um tratamento e fomos investigar tudo, mas casamos sabendo que seria muito difícil engravidar.

A lua-de-mel não foi fácil, porque já casamos com o peso do mundo nas costas. Para todo lado que eu olhava, eu via uma grávida, uma mulher empurrando um carrinho de bebê… Todo mês, quando eu ovulava, era um martírio porque meu ciclo sempre foi regular e eu sabia que estava perdendo uma oportunidade de engravidar. Resolvemos entrar na fila pelo SUS para um tratamento de fertilidade. Só que compramos um apartamento em Campinas e eu quis mudar. Na semana seguinte já consegui um emprego.

Quando cheguei lá, fui procurar um gineco que me acompanhasse, o dr. Jorge Macedo. Um dia tive um cisto que rompeu e precisei operar. Ele indicou, então, uma clínica de reprodução assistida. Lá começou uma nova saga porque não tínhamos dinheiro. Pedimos emprestado para a família toda e fui doadora de óvulos para não precisar pagar o tratamento. A cada ciclo, eu produzia cerca de 20 óvulos. Quando o médico implantou os embriões, avisou que a qualidade deles era baixa, então já fiquei sem esperanças.

Acabei fazendo 3 FIVs. Naqueles dias de espera, eu tinha certeza de que estava grávida e chegava a colocar música perto da minha barriga para o bebê ouvir. Fazia pensamento positivo e tudo. Quando descia era uma tristeza. Eu nem chegava a fazer o exame beta hcg, porque a menstruação descia antes. Na terceira vez, eu tive todos os sintomas. Foi muito frustrante. Além disso, um dos médicos foi muito estúpido e disse que ali não era centro de caridade: com aqueles espermatozoides eu nunca engravidaria. Foi muito humilhante. Aquilo acabou com a gente. Resolvemos, então, correr com a papelada para a adoção, ainda no final daquele ano, 2004.

Nesse meio tempo, meu marido foi chamado para fazer a cirurgia gratuita, e eu não podia faltar no emprego para acompanhá-lo. Quando acordou, ele me ligou desesperado. Ele chorava muito e o médico nem se dignou a ir ao quarto falar com ele. Também não colheu material nenhum para fazermos uma inseminação com os espermatozoides dele. Ele ficou arrasado. Ali eu decidi que não tentaria mais e que era hora de viver esse luto. Foi quando procuramos a Associação dos Pais Adotivos, em Campinas, para fazer um curso e receber orientações. Depois de estar habilitados, enviamos cartas para comarcas Brasil afora, pois ainda não existia o Cadastro Nacional de Adoção.

Poucos meses depois que enviamos as primeiras cartas, fomos chamados para buscar nosso primeiro filho, o Luiz Guilherme, que tinha menos de um mês de vida. Mais três anos se passaram e chegou nossa filha, Ana Luiza. Três anos depois, chegou ainda a Ana Clara. E ainda veio o Luiz Felipe, cinco anos depois.

A maternidade mudou minha vida, me trouxe um motivo para me levantar todos os dias. Eu tenho uma vida antes e outra depois deles. O fato de meus filhos terem vindo do coração, e não da barriga, não influenciou em nada. Hoje, se eu tivesse que passar por tudo novamente para ter os filhos que tenho atualmente, eu passaria. Mas se soubesse da maternidade amorosa que tenho hoje graças à adoção, talvez não tivesse feito nenhuma FIV. Imagino que, para a mulher, a gestação deve ser uma experiência única. Porém sou a mãe mais feliz e completa do mundo desde que olhei nos olhos do meu primeiro filho pela primeira vez”.

 

 

Ana Karina, 39 anos, mãe do Luiz Guilherme, de 12 anos, da Ana Luísa, de 9, da Ana Clara, de 6 e do Luiz Felipe, de 1 ano


3 thoughts on ““Eu tinha endometriose e cistos no ovário. Meu marido, ausência de espermatozoides. Acabamos adotando 4 crianças”

  1. Ionice Responder

    Que história de vida maravilhosa! Agradeço por tantas lições de vida publicadas aqui, elas tem me ajudado a passar pelo deserto que é a infertilidade.

    1. Pri Portugal Responder

      É muito difícil, né, Ionice? Eu te entendo, estamos juntas. <3 Fico muito feliz que você se sinta acolhida aqui no Cadê. Sábado, dia 25/11, teremos um grupo de apoio presencial aqui em São Paulo. Das 10:00 às 13:00, perto da estação Berrini. Se tiver interesse em participar, escreva com seu nome e RG para o email contato@cademeunenem.com.br. Beijinho e fique bem.

  2. […] dividida entre seguir o exemplo da mãe que não quis mais fazer tratamentos de fertilidade, adotou... cademeunenem.com.br/parar-de-tentar-engravidar

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