Alerta: o que você pode aprender com a minissérie Assédio

Meninas, ainda não tive coragem de assistir à minissérie Assédio, lançada no Globoplay no dia 21 de setembro. A série fala sobre a história horrorosa de assédios e estupros em série cometidos pelo ex-médico Roger Abdelmassih, especialista em reprodução humana. Mas estava lendo há pouco uma matéria no UOL, em que a jornalista Amanda Serra entrevistou uma das vítimas (veja a reportagem completa aqui), e pensei: ao relembrar a história, essa mulher indica – mesmo que sem querer – sinais de que devemos estar sempre atentas!

A forma como esse médico agia já deixava a entender que ética e preocupação com as pacientes não eram seu forte. E olha que a minissérie Assédio nem mostra todos os atos inescrupulosos que ele cometia na vida real. Segundo Cristina Silva, personagem entrevistada pela reportagem, a autora Maria Camargo optou por não abordar na minissérie Assédio as relações comerciais que o médico impunha às pacientes. “Ele obrigava a gente a comprar a medicação lá, além de realizar todos os exames e cobrar o quanto bem entendia”, recorda.

Então, meninas, sinal de alerta número 1: nenhum médico pode obrigar a gente a comprar medicamentos ou realizar exames em sua própria clínica. Claro que eles podem indicar laboratórios de confiança e podem sugerir farmácias que entregam os medicamentos – mas normalmente é uma questão de segurança e praticidade. Um bom teste nessa hora é perguntar: mas tem outra opção? E esperar a reação.

Outra pressão relatada pela paciente era para que ela fizesse inúmeras vezes o tratamento de fertilização in vitro (o mais caro de todos, como contei aqui). Ele chegou a sugerir que ela vendesse a casa para tentar mais – e olha que ela já havia feito três FIVs!!! Detalhe: claramente apelando para o emocional em um momento em que a vítima estava extremamente fragilizada. “[Ele dizia:] você só fez três tentativas, tem gente que faz até 10. Queria que eu vendesse meu apartamento. Falava: ‘Você prefere olhar o mar da janela do seu apartamento ou ter uma criança correndo na sala de casa?”. Gente, vocês têm noção do horror que isso representa?

Está certo que é muito difícil uma FIV dar certo de primeira. Afinal, você e o médico precisam entender como seu corpo responde aos hormônios, quantos óvulos seu ovário vai produzir na estimulação, se seu útero vai acolher bem o embrião, qual a sua janela de implantação etc. Mas se depois de um ou dois resultados ele não sugerir mais nenhum exame para diagnosticar a causa do insucesso, fuja! Troque de médico porque, no mínimo, o teu atual ficou sem saída para o seu caso. Isso quer dizer que ele é antético? Não. Apenas que os conhecimentos dele se limitam ao que já aplicou em você. Que tal tentar outro especialista (endócrino ou imunologista, por exemplo) para investigar tireoide, doenças autoimunes, trombofilia…? Que tal pedir análise de embrião e de janela de implantação? Brigue muito pelo seu diagnóstico! Você vai ver que depois dele tudo fica mais fácil de enfrentar. Desconfie de médico que não te traz respostas e apenas diz: temos que insistir duas, três, quatro, cinco vezes porque “FIV é assim mesmo”.

O terceiro sinal de alerta trazido por Cristina é que o médico retratado pela minissérie Assédio orientava suas pacientes a não conversarem na sala de espera, alegando que elas tinham problemas diferentes e poderiam “despertar inveja” umas das outras. Como a gente bem sabe, meninas, o isolamento aumenta a dor e nos fragiliza, enquanto a sororidade nos torna mais fortes. Aliás, foi graças a ela que as vítimas foram depondo, uma a uma, contra Roger Abdelmassih e só assim foi possível descobrir os horrores que esse monstro cometeu.

Para terminar, queria apenas contar sobre um médico que me fez sair correndo da consulta, e que também pode servir de alerta para vocês. Por sorte, não tem a ver com o caso da minissérie Assédio, mas ficou claro que esse especialista não se preocupava comigo, apenas com resultados (ou com dinheiro, o que é ainda pior). Na consulta em que descobri que meu hormônio antimulleriano estava muito baixo (0,25) e que, nas palavras dele, eu “poderia entrar em menopausa precoce”, obviamente fiquei desesperada e tive uma crise de choro. Ao que ele emendou: “você precisa correr contra o tempo”. E eu respondi, no impulso: “então, quando podemos começar?”. Sabem o que ele disse: “Ah, você está no segundo dia do ciclo. Vamos começar hoje!”.

Agora vocês imaginem se uma pessoa desesperada com uma notícia bombástica dessas vai ter condições emocionais de começar uma FIV! Ainda bem que meu marido estava junto e disse que não, que precisávamos repetir o exame e pensar com calma. Ele ainda alertou que esse exame nunca daria alteração, mas que tudo bem. Nunca mais voltei lá e a secretária chegou a me ligar duas vezes insistindo. Foi quando ficou claro que eu tinha tomado a decisão certa. Cinco anos se passaram desde essa consulta e meu hormônio antimulleriano continuou no mesmo nível (pra ser sincera, medido em outro laboratório pouco antes da minha FIV que deu certo, ele estava em 0,35)… A medicina não é uma ciência exata, afinal 😉

 

Foto: Flickr/ Peter


2 thoughts on “Alerta: o que você pode aprender com a minissérie Assédio

  1. Heloísa Responder

    Boa tarde, Pri! Tenho 33 anos e estou nas tentativas há pouco mais de um ano. Antes de completar um ano tentando, procurei fazer exames para ver se havia algo de errado. A histerossalpingrafia deu ok e o ultrassom indicou que eu ovulava, o espermograma de meu esposo também deu tudo certo, mas acabei tendo um resultado de hormônio antimulleriano baixo assim como você. Minha ginecologista então me encaminhou para um especialista em reprodução. Marquei com uma médica que me passou exames para verificar trombofilia, cariótipo, x frágil, e disse para enquanto isso continuar as tentativas de forma natural até completar um ano, e então retornasse com o resultado dos exames. Resolvi buscar uma segunda opinião e marquei consulta com outra médica que me disse que não poderíamos perder tempo e que deveríamos começar logo o coito programado por 3 ou 4 meses, e caso não desse certo iniciar a FIV. Iniciamos o coito programado logo em seguida com as mesmas medicações utilizadas para a FIV, mas em uma dosagem menor. Tentamos pelo primeiro mês, mas não deu certo, no segundo dobramos a medicação, mas também não deu certo, foi quando perguntei se deveríamos fazer outros exames para verificar a existência de outros problemas, pois pesquisando na internet vi varias pessoas com antimulleriano baixo que haviam conseguido até naturalmente, mas a médica disse que não era necessário, pois o meu problema era este do antimulleriano baixo, que prejudicava os óvulos em quantidade e qualidade, e que deveríamos partir logo para a FIV. Fiquei preocupada de partir para a FIV sem alguns exames como ressonância magnética, que tinha visto que alguns médicos listam como essencial. Queria fazer todos os exames possíveis, pois é um procedimento muito caro e que também afeta muito o nosso emocional, rotina, principalmente para quem, como eu, vai fazer fora de sua cidade. Resolvi voltar na primeira médica especialista em reprodução que tinha consultado, contei o que havia se passado, fiz os exames que ela havia prescrito, alguns ainda não recebi o resultado, como o do cariótipo, e vou fazer uma ressonância e histeroscopia diagnostica, só então, se estiver tudo certo, vamos fazer a FIV. Até agora ainda estava insegura sobre se deveria ter continuado com a outra médica, pois ela acompanhou os dois meses de coito programado e viu de perto minha resposta às medicações, mas agora com o seu relato tive certeza que não podia me conformar apenas com este diagnóstico de antimulleriano baixo. Muito tranquilizador você falar que o seu antimulleriano continuou no mesmo nível por cinco anos, pois durante todo este período tenho agido como se estivesse correndo contra o tempo. Obrigada pelo seu post, e se não achar muito invasivo, ou se puder me falar no privado também, gostaria de saber quanto deu seu antimulleriano, e se conseguiu produzir óvulos em quantidade razoável nas FIVs. Esta médica de certa forma me assustou, pois afirmava que em uma FIV eu não produziria muitos óvulos. Agradeço também se puder falar o nome de seu imunologista. Muito obrigada por seu site, é muito bom poder compartilhar o que estamos vivendo com pessoas que nos entendem por também estarem passando por isso. Para todas que ainda estão esperando pela gravidez deixo minha torcida. Beijos!

    1. Pri Portugal Responder

      oi, Heloísa, bem-vinda ao Cadê. Fico muito contente que minha experiência tenha te ajudado. Vou te responder por aqui, mas também vou acrescentar no post porque, vc tem razao, pode ajudar ainda mais gente: meu antimulleriano deu 0,25. E ele continuou no mesmo nível. Para ser sincera, o último que fiz, antes da última FIV, inclusive acusou 0,35! De fato, antimulleriano baixo não explica o porquê de não termos engravidado antes. E tampouco é sinônimo de qualidade ruim (embora possa ser, mas nenhum médico pode te afirmar isso com precisão, exceto se avaliar os embriões em alguns ciclos e sempre encontrar problemas, por exemplo). A única coisa em que ela está certa (pela minha experiência, pq não sou médica, vc sabe) é que a gente responde mal à indução nas FIVs. Vc chegou a fazer ultrassom pra ver qtos folículos produziu nos seus ciclos de coito com indução de ovulação? Já pode ser um indicativo. Eu, por exemplo, nunca produzi mais de 3 folículos, saindo da primeira vez com dois embriões, da segunda com nenhum (porque no meu caso a dosagem mais alta de hormônio era péssimo, ao contrário do que diz o protocolo comum) e da última vez, em que engravidei, tive apenas um embrião. Mas como me disse uma amiga quando fiquei arrasada com a notícia: “Pri, vc só precisa de um”. Ela tinha razão 😉 Ah, e esse é meu imuno (contato dele ao final do post): http://www.cademeunenem.com.br/entrevistei-o-medico-causas-da-minha-infertilidade/ Bjinho, Pri

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