“Tinha Ovários Policísticos, células NK, trombofilia, alteração no endométrio e tentei seis FIVs, mas ainda tenho fé”

“Meu sonho de me tornar mãe começou aos 27 anos, mas tentei por um ano e não consegui. Depois de infinitos exames, o médico detectou que eu tinha a Síndrome dos Ovários Policísticos e meu marido, alteração significava no espermograma. Ele me disse que eu jamais seria mãe de forma natural e me passou o valor de uma fertilização in vitro que era totalmente fora da minha realidade.

Passei um ano juntando o dinheiro do tratamento. Para custear os medicamentos, uma outra médica me sugeriu fazer ovodoação. Comecei em janeiro de 2014, mas não deu certo desde o começo. Ao aplicar os medicamentos, eu perdia muito remédio por não conseguir manipular as injeções. Achei que faltou informação por parte da clínica. Depois de dias fazendo errado e com uma má resposta na indução, tive apenas cinco óvulos. Então, eles me instruíram a não doar e tive que efetuar um empréstimo bancário para arcar com o custo das medicações.

No processo de fertilização, tive apenas dois embriões. Quando fiz o exame beta HCG, para minha felicidade, eu estava grávida! Era uma vontade de rir, chorar e agradecer ao mesmo tempo. Estava com cinco semanas quando decidi ir até Aparecida do Norte agradecer. Na volta do passeio, parei para ir ao banheiro e ali começou um sangramento intenso. Fui a um hospital e fiquei em casa de repouso por uma semana. Até que um dia senti algo mais forte e tive a certeza de que meu sonho tinha acabado. A médica tentou me explicar as prováveis causas de um aborto, dizendo que na maioria dos casos era um problema genético no embrião. Mas meu mundo caiu. Era uma coisa que eu achava que nunca ia acontecer.

Em agosto de 2014 voltei à clínica. Dessa vez, faria um ciclo inteiro para doar os óvulos e depois outro para ficar com a metade deles. Apliquei a medicação na clínica e cheguei a ter hiperestímulo, mas doei todos aqueles óvulos. Depois disso, tive que esperar alguns meses para o meu corpo voltar ao normal. Em dezembro, tive dois blastocistos, um deles mais desenvolvido e de ótima qualidade, porém mais uma vez sofri com o hiperestímulo e tive que congelar os embriões até meu corpo voltar ao normal. Era mais um custo altíssimo e tive que recorrer a um novo empréstimo.

No começo de 2015, fiz o preparo do endométrio e fomos para o dia mais esperado. Sabia que a bexiga tinha que estar cheia, então tomei vários copos de água, mas a médica – que era nova no meu caso – me deixou mais de uma hora em cima daquela maca. O momento da transferência foi um pesadelo: senti cólicas, sangrei, a enfermeira baixou a maca e minhas pernas caíram no chão… mas fomos em frente. Em janeiro, recebi uma mensagem da médica com o resultado negativo. Minha cabeça procurava respostas e eu pensava: como pôde acontecer se era um embrião de ótima qualidade? E os dias se passaram sem que eu compreendesse.

Na nova consulta, a médica sugeriu novamente a ovodoação, mas eu precisava de um tempo para colocar as ideias no lugar. Resolvi buscar outra opinião e a nova médica tirou todas as minhas dúvidas, me explicando o processo: eu faria apenas um ciclo e doaria metade, sem arcar com nenhum custo. Fiz meu cadastro, porém sem muita esperança de ser chamada.

Em um dia muito chuvoso de março, voltei à primeira clínica. Quando entrei para a consulta, começou um show de horrores. Primeiro, a médica me questionou ter procurado uma segunda opinião, como se eu tivesse cometido um crime. Depois, se virou perguntando no que podia me ajudar. Eu, já tensa, contei tudo o que nós duas tínhamos conversado e ela teve um surto de amnésia: falou que não se lembrava de nada, que a situação financeira do país estava difícil e que não era possível me fornecer o tratamento como doadora. Me senti muito humilhada. Só me lembro das lágrimas caindo compulsivamente. Não conseguia mais pisar naquela clínica. Fiz o que meu coração mandou.

Mas nada na vida é coincidência. Eu estava saindo de férias em julho de 2015, quando recebi uma ligação daquela segunda clínica, que tinha uma receptora. Sem nem pensar, cancelei a viagem e comecei o tratamento. Ali eu me sentia acolhida. Mais uma vez tive o hiperestímulo e no final do processo fiquei com dois embriões de cinco dias, que tive que congelar. Fiz a transferência em novembro e foi tudo tranquilo. Mas o resultado… lembro de ouvir a voz da médica me dando a notícia do negativo e aquela decepção. Depois de uns dias, voltei na clínica e ela me passou exames mais específicos, como o de trombofilia e uma biópsia do endométrio.

Fiz todos, e acusaram células NK no endométrio e uma pequena alteração indicativa de trombofilia, mas sem recomendação de medicação. Demorou quase um ano para seu ser chamada para a doação de óvulos e em outubro de 2016 comecei tudo novamente. Desta vez, o hiperestímulo foi pior que nunca e fui parar no hospital, onde tive que tomar morfina na veia de tanta dor. Fiquei com dois blastocistos, que foram congelados. Em dezembro, transferi. Mas desta vez tomei Imunoglobulina por causas das células NK e medicação para a trombofilia, somente por precaução. Mais uma vez a resposta do beta foi negativa.

A doutora me sugeriu que, na próxima FIV, fizesse um exame chamado ERA. Ele analisa o dia correto para a transferência do embrião de acordo com o estado do endométrio. Era caro – R$ 2.500 na época – e o resultado demorou 15 dias para sair, mas ali estava minha resposta! A minha janela de implantação era de um dia a mais em relação à média das mulheres. Ou seja, a transferência precisaria ser feita um dia mais tarde.

Em março de 2017, fui chamada novamente. Na clínica eu já conhecia todo mundo e tive mais dois embriões, que congelei devido ao hiperestímulo. Em julho, fiz a transferência aplicando Clexane e Imunoglobulina. A minha ansiedade dos dias do beta já não era a mesma, pois não queria criar expectativas. A médica me ligou para falar o resultado de noite e disse: ‘parabéns você está grávida!’ Eu não acreditei, chorei, ajoelhei e agradeci a Deus. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Saí correndo para contar para o meu marido e comemoramos juntos.

Com cinco semanas de gestação, fiz um ultrassom e nem a vesícula nem o embrião estavam lá. Dessa vez, a queda foi pior porque eu tinha conseguido e tinha perdido. Tive que sair da clínica e seguir para o trabalho, pois não podia faltar sem falar o que estava acontecendo. Alguns dias depois, voltei à médica, que foi bem sincera e disse que tínhamos investigado tudo e nossa última alternativa seria fazer a biópsia dos embriões em uma próxima FIV.

Minha hora chegou novamente em janeiro desse ano. Sinceramente, não tinha nenhum sentimento, nem positivo nem negativo. Eu não queria desistir, mas não me empolgava mais. Tudo ocorreu conforme eu já sabia: muitos óvulos, hiperestímulo… e os três blastocistos foram para a biópsia para depois serem congelados. Depois de 15 dias recebi uma ligação do laboratório dizendo que dois embriões eram saudáveis para transferência e perguntando se eu queria saber o sexo. Fiquei muda até entender o que estava acontecendo e respondi que sim. Eram dois meninos. De repente, era como eu já estivesse grávida.

Chegou abril, o mês da transferência. Dessa vez meu marido estava muito mais confiante que eu e o cenário parecia perfeito: medicações ok, embriões ok… mas por algum motivo eu não conseguia estar confiante. Chegou o dia do beta. A médica, já me conhecendo, me ligou no final da tarde dando os parabéns. Disse ainda que o beta estava altíssimo e ela achava que eram gêmeos. Meu marido ficou radiante, mas no fundo eu ainda estava com medo da hora em que chegaria a parte ruim. E ela chegou. Depois de três dias, tive um pequeno sangramento e corri para a clínica fazer um ultrassom com a médica de plantão. Pela primeira vez vi meus bebês. Os dois estavam lá. Foi a sensação mais incrível da minha vida, nunca cheguei tão longe.

Dois dias depois, acordei de madrugada sangrando e já corri para um hospital. Chegando lá, foi o de praxe: passei pelo ultrassom e os dois meninos estavam lá. Desta vez ouvimos o coração. Meu marido se emocionou e eu estava anestesiada, não conseguia nem me emocionar. Já estava preparada para o pior. O médico só me pediu repouso de uma semana.

No dia seguinte, acordei banhada de sangue: um embrião já tinha saído e o outro estava lá, mas sem batimento cardíaco. Naquele momento, eu não ouvi mais nada. Não chorei, não falei, eu me sentia em uma luta onde apanhava sozinha, mas não me defendia. Eu não tinha sentimento, não tinha vontade de chorar, de conversar, não sentia raiva…

Jamais na vida a gente achou que ia passar por isso. O que aprendi com tudo o que vivi é que, por mais que a ciência esteja avançada, se não for a vontade de Deus nada adianta. E, por mais que muitas vezes eu tenha desacreditado, alguma coisa ainda não me deixa desistir. Tanto que agora decidimos entrar na fila de adoção, pois a minha maior certeza é de que eu quero ser mãe”.

Talita, 32 anos

 

Foto: Flickr/ Tini – Born on May 6


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