“Tive três tumores, depressão, duas perdas espontâneas, tentei FIV e agora procuro a cura dentro de mim. Neste processo, não deixar a vida ruir já é uma vitória”

Aos 36 anos, decidi que queria engravidar e fui à minha ginecologista. Quando fiz os primeiros exames, descobri que tinha três tumores: um na tireoide, um no fígado e um no seio. Para começar, como a tireoide regula os hormônios, eu não teria como engravidar sem antes tratá-la. Foi o que eu fiz. Acompanhei o nódulo do seio – que não deu em nada – e o do fígado desapareceu (nem os médicos sabem como). Mas levei um ano nesse tratamento de tireoide e precisei adiar o sonho da maternidade. Acabei caindo em depressão, fiquei com muito medo de morrer e foi um período difícil. Mas eu nem imaginava o que estava por vir.

Comecei a fazer meditação transcendental como tratamento complementar à depressão e, quando me senti mais fortalecida, voltei à minha médica e ela me liberou para tentar engravidar. No primeiro mês já estava grávida. Foi uma alegria tão grande! Lembro que meu rosto inchou, então as pessoas percebiam e eu contei para todo mundo. Me sentia especial, quase uma fada. Só que na 14ª semana, quando fui fazer um ultrassom, vi que o bebê estava como que encolhido, afinal, a esta altura ele já tinha até ossos.

O médico não teve a menor delicadeza ao me contar que o meu bebê tinha morrido. E eu não vivi nenhum sintoma, nenhum sangramento, nada. Fiquei desesperada e juro que naquela hora pensei que queria morrer. Minha médica me acalmou por telefone e disse que era um problema única e exclusivamente desta gravidez. Que na sequência já poderia engravidar novamente.

Agendei a curetagem, mas fiquei por 10 dias com meu bebê dentro de mim até realizar o procedimento. Foi dolorido demais. Na sequência, sangrei muito e me senti mal porque minha placenta tinha continuado crescendo e só neste momento ela começava a se desfazer. Fui, então, submetida a outra curetagem.

Por incrível que pareça, dois meses depois já estava grávida novamente. Desta vez, não contei para ninguém, porque a esta altura ainda encontrava as pessoas que souberam da primeira gravidez e elas me perguntavam como estava o bebê. Era horrível.

Nesta segunda gestação, o coração do bebê simplesmente parou de bater. Eu soube em outro ultrassom, no dia do meu aniversário. Estava com nove semanas. Fiquei em estado de choque e nem consegui chorar na hora. Fiz outra curetagem após uma semana e novamente sangrei muito. Cheguei a desmaiar em casa e meu marido me levou para o hospital. Fiquei internada por sete dias, com sangramento intermitente e pressão 8×3, até que recebemos a notícia do exame feito na curetagem: eu tinha tido uma mola, que é uma alteração no saco gestacional superperigosa para a saúde do útero. Fui, então, submetida a uma raspagem uterina para garantir sua retirada.

Passei nove meses em depressão, tentando entender por que isso estava acontecendo comigo, buscando alternativas e tratamentos. Procurei osteopata, doula especializada em mulheres que desejam engravidar, constelação familiar, terapia freudiana com uma psiquiatra… Até que minha ginecologista me disse: ‘todo esse seu sangramento pós-curetagem não é normal. E é possível que a qualidade dos seus óvulos seja o problema, porque estão velhos. Então sugiro que tente uma FIV com biópsia nos embriões para aumentar as chances de ter um bebê saudável’. A esta altura, eu já tinha investigado meu endométrio e estava tudo bem com ele.

Então, resolvi partir para uma FIV e investigar os embriões. Na primeira tentativa, apenas um era viável, implantei e ele não vingou. Fiquei arrasada, mas não esperei muito para tentar novamente. Tive 3 embriões, mas nenhum estava apto a ser transferido, pois tinham anomalias eram de não-desenvolvimento. Provavelmente os outros dois bebês que eu perdi também tinham esses problemas genéticos e minha médica disse que a natureza acaba sendo sábia ao provocar essas perdas.

Esgotada, tirei um tempo para viajar com meu marido, resgatar a relação tão fragilizada por estes anos todos de sofrimento e dor, e agora estou à procura de me conhecer melhor. Olhando daqui para trás, vejo o quanto tudo isso me desconectou de mim mesma, quão obcecada eu estava em conseguir a minha tão sonhada barriga e tudo que coloquei em risco para conseguir, inclusive minha própria vida. Passei tantos anos buscando uma cura fora de mim, na medicina, esperando respostas que ninguém conseguiu me dar, agora decidi encontrá-la dentro.

Voltei a meditar diariamente, mergulhei nas aulas de yoga, melhorei muito minha alimentação, até tentando tirar a carne vermelha, e procurei tratamento na medicina chinesa (fitoterapia e acupuntura). Troquei de terapeuta, que está me ajudando muito a me encontrar, me amar e me reconectar. Ela me ensina exercícios simples para me livrar de hábitos que me incomodam. Sempre que tenho muito medo de alguma coisa, por exemplo, eu fico mentalizando algo positivo e procurando acalmar minha mente.

Em resumo, todas estas terapias estão me ajudando a mudar completamente meu ser. Procuro viver o agora e torná-lo o mais leve e feliz possível, através de mudanças de hábitos e conexões que proporcionem calma, desaceleração da mente, autocontrole e tranquilidade. É um trabalho profundo para eu entender o que acontecendo dentro de mim e para viver o presente, sem neuras com o passado, o futuro ou o relógio biológico.

Hoje, acredito que mais que a energia que vem de fora, é alguma energia que emana de mim que interfere nessas tentativas frustradas. Quero entender o poder dessa energia e continuar tentando. Mas já aprendi, depois de todo esse tempo, que não enlouquecer no processo de tentar engravidar e não deixar a vida ruir já é uma vitória”.

 

Priscila, 41 anos


6 thoughts on ““Tive três tumores, depressão, duas perdas espontâneas, tentei FIV e agora procuro a cura dentro de mim. Neste processo, não deixar a vida ruir já é uma vitória”

  1. Rosângela Responder

    É uma história mais impressionante que a outra. Priscila, sua história de fé me contagiou.
    Deus te abençoe com o tão sonhado positivo!

    1. Priscila Responder

      Quando a Priscila Portugal me sugeriu este depoimento, embora ele seja desconhecido para grande parte do meu círculo e tenha sentido receio de me expor, logo me veio um orgulho de ter uma história tão forte pra contar e ainda ter tanta esperança pra viver que rapidamente aceitei, com objetivo de transmitir forca, fé, gratidão, amor e perdão! Eu serei mãe, seja como for, de quem for e este desejo eu e vc podemos e devemos realizar! Obrigada pelas lindas palavras!

  2. Cristiane Responder

    Concordo plenamente c vc Priscila. Se manter firme, não desmoronar e continuar levando a vida já é uma grande vitória. Boa sorte p vc!!!!

  3. Aura Responder

    Oi Priscila, muito forre e comovente a sua história. Espero que você encontre o seu eixo e se alinhe à vontade divina. Eu, depois de uma década tentando engravidar, deixei o fluxo da vida me levar e hoje descobri que posso ser feliz sem ter filhos. Respeito e aceito a vontade de Deus. O meu casamento é sereno e estamos descobrindo e aproveitando a vida. Abraços de luz.

  4. Cora Responder

    Priscila, fiquei muito tocada com a sua história. Entendo algumas coisas pelas quais você passou. Sofri um aborto espontâneo em 2011, com muita dor e desespero. Meu marido não queria filhos e depois disso nos separamos. Também fiz todos os tipos de terapia que você possa imaginar! Então, com 36 anos, congelei meus óvulos e rezei e pedi muito para ter um próximo companheiro que quisesse ser pai. Bem, eis que comecei um novo relacionamento e ele NÃO queria ser pai. O desespero bateu a minha porta de novo. Nos separamos umas 20 vezes, sem brincadeira, sempre pelo mesmo motivo. Então, resolvi fazer uma inseminação SOZINHA, com sêmen de doador anônimo. Já havia dito a ele que um dia, mais cedo ou mais tarde, eu iria aparecer grávida. Consegui um embrião dos óvulos descongelados, implantei e hoje estou grávida de 17 semanas. Precisei contar para ele no susto. As coisas foram mais ou menos por um tempo e agora já desandou de novo. Mas, eu sabia que teria que fazer uma escolha. Ou o companheiro que é maravilhoso ou o filho. Decidi pelo filho, mesmo sozinha, morando longe da família, decidindo tudo sozinha, com várias dúvidas e medos. Enfim, esse relato é só para te dizer que o sonho puxa a gente. É muito forte. E a gente vence tudo para realizá-lo, porque é algo que vem da alma, é um chamado, um apelo e sabemos que se não nos desdobrarmos para segui-lo, não teremos paz. O processo é duro, mas de muito aprendizado. E vale a pena. Acredito que pelo que você já passou e pela sua força, você realizará esse sonho de uma forma ou de outra. Ah, e sobre a idade, não se preocupe tanto. Eu tenho 43 anos.

    1. Pri Portugal Responder

      Que corajosa sua história, Cora. Te desejo toda força e amor para seguir com seu bebezinho nessa nova e desejada jornada. Vou passar sua mensagem para a Priscila e ela certamente vai se emocionar. Eu, enquanto isso, queria saber se podemos contar sua história na seção Depoimentos, aqui no Cadê Meu Neném? Se vc me autorizar e topar me contar mais detalhes, me escreve no contato@cademeunenem.coml.br, por favor? Obrigada. Beijinho, Pri Portugal

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