“Meu final feliz, eu devo àquele filho que talvez nunca venhamos a ter”*

“Eu estava com 39 anos, viajava pelo mundo, tinha um milhão de amigos e grandes ambições. Estava seguindo perfeitamente a receita perfeita para o que uma vida perfeita deveria ser. Só me faltava um filho. (…)

Foi quando a vida me mandou um homem. Chris, 39 como eu, sem filhos. Ele não cabia nos meus planos. Eu não podia fazer com que ele tivesse um filho imediatamente! O lado bom é que eu acho as químicas da paixão mais fortes que as da razão. E decidi adiar meus planos por um tempo e aproveitar as deliciosas complicações de uma história de amor que brotava. Brincando cada vez mais com meu relógio biológico.

Mas continuamos nos amando e um dia ele me pediu em casamento. A primeira coisa que eu fiz, poucos meses depois que ele concordou em ter filhos? Liguei para um médico, óbvio. Eu tinha 40 anos, quase 41. Fui à ginecologista que me recomendaram e ela imediatamente me apavorou: ‘Seus níveis disso estão MUITO BAIXOS. Seus níveis daqui estão MUITO ALTOS. Nossa, olha esse FIBROIDE. Na sua idade, recomendo uma inseminação intrauterina mês que vem. Porque VOCÊ NÃO TEM UM MINUTO A PERDER’. (…)

Fizemos a inseminação. (…) Mas no dia em que minha menstruação desceu, fiquei muito triste. Eu estava só no começo. A partir daquele dia, minha menstruação se tornaria o símbolo do fracasso do meu corpo, o fracasso da minha feminilidade, o fracasso da minha vida. (…)

Fui a outro médico, que prescreveu esteroides, hormônios e esperança. Foi o coquetel químico perfeito para deixar uma mulher já fragilizada totalmente louca. Por aqueles longos meses, eu parei de viver. Eu baixava na internet livros de autoajuda mais rapidamente que consigo dizer ohm. Parei de tomar café e álcool, parei de comer, parei de sair, parei de viajar, parei de me divertir. (…)

Em poucos meses, passei da namorada doce e alegre a um mártir da fertilidade. Eu comecei a chorar muito, todos os dias. Era como se eu tivesse perdido alguém. Lágrimas demoradas e quentes, por horas. Eu era uma mulher? Eu era desejável? Eu era infértil? O que eu tinha feito? (…)

Em janeiro, mudei para Los Angeles e fiz minha FIV. Eu virei um zumbi, obedecendo tudo o que qualquer pessoa com um pouco de conhecimento me mandasse fazer. Acupuntura, ervas chinesas, hormônios, meditação da fertilidade, esteroides, xamãs. (…)

Eu ainda fingia ser forte naquela época: contava piadas, fazia as enfermeiras rirem. Fiz piada quando elas me explicaram que eu precisaria tomar cinco injeções por dia. Fiz piada quando fui à farmácia e saí com um pacote cheio de remédios. Fiz piada quando aprendi como posicionar a agulha na minha barriga, escondida em um canto da casa como um animal ferido. Contar isso para vocês ainda me faz chorar. (…)

Depois da aspiração dos óvulos, o doutor deveria me ligar todos os dias para me atualizar sobre a evolução deles. (…) Um dia ele ligou e disse que os dois embriões que eu tinha fertilizado não estavam bons. Não tinha dado certo. Eu estava destruída. Nada tinha me preparado para isso. Nada tinha me preparado para um ano de hormônios tóxicos, de conversas tóxicas, de pensamentos tóxicos. Um ano perdendo minha cabeça, minha felicidade, meu amor. (…)

O tempo passou e a dor também. (…) Mas não quis escrever essa história com um ‘final feliz’. Minha história me ajudou a entender a enorme pressão que as mulheres sofrem para serem mães, uma pressão que eu tinha internalizado completamente e que eu questiono hoje. Essa ideia de ter uma vida completa, de ter tudo. Como se nossas vidas não pudessem ser completas sem um filho. (…)

A verdade é que a vida não é justa, e a vida não tem regras. A vida é muito melhor que isso. Não estamos na escola. Não é o mais esforçado ou o mais afortunado ou o mais virtuoso que tem sucesso e consegue a felicidade ‘perfeita’. Às vezes, o máximo que podemos fazer é nada. Só deixar a vida decidir e nos apaixonar pelo nosso destino.

E é isso que estamos escolhendo fazer, por ora. Meu final feliz, eu tenho. E eu devo ele àquele filho que talvez nunca venhamos a ter”.

Garance Doré, 42 anos, fundadora do (maravilhoso) site AtelierDore.com.

 

*Esse depoimento não foi dado ao site Cadê Meu Neném? Eu resolvi trazê-lo porque a Garance Doré sempre foi meu modelo de sucesso profissional e parecia ter uma vida perfeita, como tantas mulheres que a gente admira. Quando li seu dolorido e inspirador depoimento no incrível site Lenny Letter, quis trazer um trecho para vocês, sobretudo para as meninas que não falam inglês. Ninguém está livre de passar por essa dor e precisamos falar mais disso. De qualquer forma, recomendo a leitura completa, para quem puder, nesse link aqui.

 

 

 

Foto: Reprodução/Instagram @garancedore


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