Disciplina x Flexibilidade

Sempre me orgulhei de ter muita disciplina. E isso aparece em várias esferas da minha vida. Me ajuda muito, por exemplo, a organizar minha rotina, visto que sou freelancer: consigo focar bastante no trabalho e fazer o dia render. Ao mesmo tempo, posso ir pintar os cabelos em uma sexta de manhã ou fazer academia ao meio-dia de uma quarta-feira.

Disciplina. Aquela característica que me fez aprender três línguas (e meia), que me possibilitou me virar sozinha quando morei fora do país, que me faz testar e retestar uma nova receita até ela ficar gostosa, que me permitiu insistir na amamentação mesmo quando tudo parecia muito difícil e, claro, que me possibilitou engravidar.

Você deve estar se perguntando: mas isso não é obstinação? Entendo. É fácil confundir, porque muitas vezes as duas andam juntas. E dentro de mim, inclusive, são quase inseparáveis. Mas a meu ver a obstinação é querer e tentar muito, só que não necessariamente com método. Quer ver? Alguém que quer muito engravidar, mas num dia cuida na saúde e no outro não. Num dia acompanha o ciclo menstrual e no outro não. Num mês faz o tratamento indicado pelo médico de confiança e no outro não.

Semana passada o ex-presidente americano Barack Obama esteve no Brasil e muita gente compartilhou “lições” que ele deixou nessa palestra. Uma delas ele costuma falar em suas entrevistas: “quanto mais trabalho, mais sorte tenho”. A meu ver, a disciplina é isso. Trabalhar duro. E, somado à obstinação, esse trabalho árduo leva a algum resultado. Nem tudo está nas nossas mãos. Ahhh como sabemos disso, né, meninas? Mas uma parte está. Então, nos cabe fazer nosso melhor e confiar que o mistério da vida fará o resto. Mas eu já falei disso aqui. Hoje, quero escrever sobre outra coisa.

Algo como o lado reverso da moeda da disciplina. Para quem é disciplinado – falo por mim, claro, nem tenho a ambição de dar conta de todos os seres disciplinados do planeta – ter flexibilidade muitas vezes é desafiador. Porque ter flexibilidade significa admitir que não temos controle de tudo. Que muitas coisas vão acontecer diferente do que imaginamos e é preciso ter jogo de cintura para aceitar. E se adaptar.

Certa vez ouvi que devemos nos mirar no exemplo do bambu. Sai, meme!

Mas por que no bambu? Porque ele é firme, mas ao menor vento se deixa levar. Ele enverga, mas não quebra. Ou seja, amiguinhas, de nada adianta você ser a mestra da disciplina (academia toda manhã, almoço saudável, medicamentos e florais na hora certa, app de ciclo menstrual, cabelos brancos bem cobertos, depilação em dia, casa brilhando, roupas limpas e passadas, trabalho super em dia, contas organizadas, meditação toda noite) se lhe falta a tal flexibilidade.

Porque quando a menstruação vem, você desmorona. Quando o beta sai negativo, você desaba. Quando a FIV não dá certo, seu mundo cai. É preciso ser flexível para entender que a pessoa que fala “você precisa relaxar” pode, sim, querer seu bem e você pode conter o impulso de torcer o pescoço dela. É preciso ser flexível para perceber quando seu médico não é o caminho e é preciso procurar outro. É preciso ser flexível para juntar dinheiro e tentar um novo tratamento. Para compreender quando seu marido não quer tocar no assunto, visto que ele sofre à maneira dele. Para considerar adoção, ovodoação, tratamento invasivo… E é preciso ser flexível até para desistir, se for isso que seu coração pede.

Eu apanhei bastante para entender isso. E confesso que ainda apanho porque, minhas amiguinhas, se vocês acham que isso passa quando a gente vira mãe…

Foto: Flickr/ Mary Specht


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