“O diagnóstico do meu marido foi oligospermia. Já me revoltei contra a vida, mas hoje resolvi ser feliz, com ou sem filhos”

“Sempre falávamos em ter filhos, mas foi após sete anos de casados, em 2013, que resolvemos procurar um médico. Ele nos trouxe o diagnóstico: oligospermia, ou seja, baixa produção espermática do meu marido. Com isso em mãos, procuramos quatro especialistas em Reprodução Humana para saber o que fazer.

Todos nos informaram que o único processo viável para uma gravidez, em caso de oligospermia, seria uma FIV. A fertilização envolve algumas etapas e cada uma delas tem seu grau de expectativa, ansiedade e estresse. Durante os 28 dias da tentativa, eu dediquei minha vida a esse processo. Parecia que todo o resto do mundo tinha desaparecido.

Quando veio o resultado negativo, fiquei sem chão. É como se eu tivesse apostado todas as fichas em uma partida que tinha certeza de que iria ganhar. Só que não. Ainda tive forças para fazer mais duas fertilizações in vitro e, em uma delas, engravidei. Porém, com seis semanas tive um sangramento, refiz o exame Beta e vi que não tinha mais o que fazer. Era um aborto espontâneo.

Foi muito difícil para mim, pois desde o diagnóstico de oligospermia do meu marido eu vinha com um quadro de depressão. Consegui me recuperar com ajuda médica: tomava medicação específica orientada por um psiquiatra e fiz muita terapia. Também foi essencial o apoio do meu marido e da minha família.

O desgaste emocional dessa situação é imenso e eu e meu marido nos afastamos, apesar de sermos muito parceiros. Sabíamos que tinha algo entre nós, um sentimento de culpa e incapacidade, mas era difícil lidar, então não falávamos a respeito. Só percebi isso quando minha terapeuta me alertou de que havia algo errado com o meu casamento. Às vezes, a gente se acostuma com o problema e finge que ele não existe. Era assim que vivíamos.

Quando ela me falou, achei impossível, mas depois entrei em desespero. Ficava pensando: ‘Será que me casei com o homem certo? Será que eu o amo?’. Então, meu marido passou a ir na terapia também e as coisas começaram a melhorar. Aprendemos que nenhum relacionamento existe sem diálogo e que ninguém pode se anular para fazer o outro feliz.

Amar é negociar ou ceder quando é preciso. É compartilhar, é saber respeitar o próprio espaço e o do outro, seus projetos e seus amigos. Ninguém disse que viver a dois seria fácil, mas viver de modo verdadeiro e intenso ajuda. Só conseguimos superar a questão da oligospermia porque nos amamos muito. Hoje, tenho certeza de que casei com o homem certo e, se há outras vidas, é com ele que quero viver todas.

Sobre os filhos, há um ano escutamos do médico que tudo já havia sido feito. Só nos restava tentar até dar certo. Como assim? Tentar envolve um grande desgaste psicológico, físico e financeiro. Até quando vou ter forças e dinheiro para tantas tentativas? Foi desanimador.

Então, pedi para uma advogada ir atrás do processo de adoção e ela me entregou toda a papelada. Mas antes de iniciar, eu e meu marido resolvemos fazer mais uma FIV. Este foi um sinal de que não estamos preparados para adotar. Não quero que a adoção seja meu plano B, seria desrespeitoso com a criança que nós viríamos a receber. Ainda não descartamos a questão, mas ainda precisamos de mais amadurecimento e temos que desapegar de alguns sonhos, como a gravidez, o parto e o bebê.

Desde a última FIV, que foi tão dolorosa, acho que já chega. Este é o meu limite. Mas do futuro não sei. É uma decisão que envolve arrependimento, culpa e um turbilhão de pensamentos que atazanam minha mente. Sem contar que tenho que levar em conta o tempo, o maior traidor da fertilidade da mulher.

Mas… e quanto a mim? A cada tentativa frustrada, parecia que eu levava uma surra sem ter cometido um pecado, entende? Primeiro, recebo um monte de hormônios. Depois vem um processo invasivo para a retirada dos óvulos e outro para implantação… a ansiedade me deixa maluca. Aí, me pergunto: até quando vale a pena tudo isso? Não sei responder, juro que estou avaliando.

Ter este desejo e me sentir impotente por não alcançá-lo despertou em mim sensações que jamais pensei que seria possível. Já me revoltei contra a vida, contra Deus, busquei respostas onde não havia… Meu maior medo é ser uma mulher amarga e frustrada e esquecer que a felicidade está nas simples escolhas da vida.

Então, hoje, resolvi ser feliz com ou sem filhos. Não tenho vergonha de assumir que sempre sonhei em ter uma vida crescendo dentro de mim e ter esse pedacinho de gente em meus braços. Mas quero seguir a minha vida em paz, sem obsessões e ser feliz com o que eu tenho. Ainda não sei se isso é possível, mas vou tentar”.

 

 

Fernanda Kawashaki, 36 anos

 


2 thoughts on ““O diagnóstico do meu marido foi oligospermia. Já me revoltei contra a vida, mas hoje resolvi ser feliz, com ou sem filhos”

  1. Márcia Responder

    Meu marido tomou vitaminas com zinco e ácido fólico e melhorou a contagem de espermas. Não custa tentar!

    1. Pri Portugal Responder

      Obrigada pela sugestão Márcia, vou passar para a Fer <3.

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