Exclusivo Cadê Meu Neném?: conversei com os médicos que fizeram o transplante de útero no HC

Eu sempre fui 100% favorável à doação de órgãos, porque tenho uma visão de que um corpo após sua morte cerebral não tem nenhuma valia e um transplante salva uma vida. Respeito quem pensa diferente, óbvio, mas é o que desejo para mim. Só que até bem pouco tempo atrás não se falava em transplante de útero. E agora isso mudou, trazendo esperança para meninas que nasceram sem útero ou com má formação e também para as que precisaram retirar o seu por alguma razão, como tumores.

Não sei quem lembra, mas eu tinha anunciado aqui no Facebook do Cadê o primeiro parto em que o bebê foi gestado em útero transplantado nos Estados Unidos. Segundo a reportagem do G1, “a norte-americana recebeu o útero de uma enfermeira de 36 anos, que já tinha tido dois filhos. O hospital Baylor possui um programa de transplante de útero e, até hoje, dez transplantes foram realizados — no entanto, apenas cinco foram completados com sucesso e, em um deles, a gravidez foi possível”.

Notícia linda, mas ainda muito distante da brasileira que precisa de um transplante de útero, certo? Errado. Nasceu essa semana, no Hospital das Clínicas, o primeiro bebê do mundo que foi gerado em um útero transplantado de uma doadora morta. A receptora, de 33 anos, nasceu sem útero, por causa de uma síndrome chamada de Rokitansky. O transplante já tinha acontecido em setembro do ano passado, em uma cirurgia que tinha durado 10 horas. A gravidez precisa acontecer via fertilização in vitro, pois o útero não está conectado com as trompas de Falópio . A paciente engravidou na segunda FIV feita depois do transplante de útero. O parto foi uma cesariana e o órgão foi retirado da mamãe logo na sequência. Fiquei realmente encantada com essa história e fui conversar com os responsáveis por esse milagre da medicina, o dr. Wellington Andraus, coordenador de Serviço de Transplantes de Órgãos do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas da USP e o dr. Dani Ejzenberg, especialista em fertilidade e membro da equipe responsável pelo transplante. Hoje, você confere a entrevista com o dr. Wellington, mas te convido a voltar ao Cadê amanhã para ver a entrevista com o dr. Dani.

 

Entrevista com o dr. Wellington Andraus sobre o transplante de útero

post 64 - Wellington Andraus - transplante de útero

Cadê Meu Neném?: Toda mulher pode se candidatar a receber um transplante de útero?

Dr. Wellington: Qualquer mulher que tenha como único problema de fertilidade a ausência do útero. O motivo pode ser porque ela nasceu sem, porque tem sinéquia, porque retirou por câncer ou excesso de miomas e até endometriose que invalide a gravidez. Nesse momento estamos considerando como pacientes, mulheres de até 35 anos, que tenham um relacionamento estável. Mas este ainda é um projeto de pesquisa, vamos ver como vão caminhar no órgãos responsáveis as demais liberações.

 

Cadê Meu Neném?: Outros hospitais no Brasil estariam preparados para realizar esse transplante?

Dr. Wellington: Demanda um treinamento específico, portanto, médicos que desejem treinar para atuar em transplante de útero devem passar por algum hospital que já tenha feito. Em termos de equipamento, qualquer hospital que trabalhe com transplante pode fazer.

 

Cadê Meu Neném?: Qual deve ser o perfil da doadora, além de a família ter autorizado a doação múltipla de órgãos?

Dr. Wellington: Por enquanto, o perfil da doadora é que tenha até 45 anos e já tenha tido um filho.

 

Cadê Meu Neném?: Sobre a doação em vida: o que é preciso para ser doadora?

Dr. Wellington: Nos outros países que fizeram, usaram idades mais avançadas, até mais de 50 anos. Ainda não temos esse programa no Brasil, mas deve valer a regra que já existe para doação de outros órgãos: tem que ser parente ou então ir a um juiz para deixar claro que não existe comércio de órgãos. Depois, deve ter tipo de sangue compatível, na mesma regra que vale para a doação de sangue. Mas a gente só consegue avaliar a qualidade do útero no momento da retirada. Se tiver um ou outro pólipo, apenas, não é um problema.

 

Cadê Meu Neném?: Como o útero “sobrevive” dentro de outro corpo, sem as trompas e ligações habituais?

Dr. Wellington: Ele tem vascularização, e já é transplantado com ela, para se fixar. As artérias e veias são reconectadas na paciente e então fixamos os ligamentos.

 

Cadê Meu Neném?:  Por que o parto foi cesariana?

Dr. Wellington: Ainda não temos certeza se o útero transplantado vai resistir ao esforço de um parto normal. Nós também tememos esse finalzinho da gestação e tiramos o bebê um pouco antes.

 

Cadê Meu Neném?:  O procedimento foi feito pelo SUS?

Dr. Wellington: O transplante, sim. O serviço de fertilização é do Hospital das Clínicas.

 

Cadê Meu Neném?:  A outra paciente que recebeu um útero nesse estudo não conseguiu engravidar. Alguma pista do porquê?

Dr. Wellington: Ela teve uma trombose na artéria e precisamos retirar o útero, ela nem chegou a tentar engravidar.

 

*Foto que abre o post: Flickr/ Hey Paul Studios


Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *