“Na fertilização, os óvulos eram da minha namorada e o útero, meu”

Quando era adolescente, achava que dificilmente engravidaria porque pensava que ter duas mães seria complicado para a cabeça de uma criança. Era outra época e talvez eu mesma tivesse dificuldade de me aceitar quando era mais jovem. Hoje em dia, felizmente, as pessoas têm a cabeça mais aberta. E a verdade é que sempre desejei engravidar.

Desde que eu e a Mari começamos a namorar, há oito anos, conversamos sobre isso. Mas sabíamos que a fertilização in vitro era um processo complicado e caro, então precisaríamos pensar muito bem antes de colocar esse plano em prática. Além disso, tinha uma questão profissional, a gente queria esperar as carreiras se desenvolverem antes de ter um filho.

No nosso caso, especificamente, havia outra questão: a aceitação. Não bastava que as nossas famílias aceitassem nosso casamento. Os avós são muito importantes no desenvolvimento de uma criança e sabíamos que nossos pais precisariam se envolver emocionalmente. Então, foi necessário esse processo de convívio, que eles entendessem a gente como família e estivessem ao nosso lado.

O que nos fez realmente decidir engravidar foi a idade: a Mariana tem 35 anos e eu, 33. Então, fomos ao médico e estava tudo bem. Em novembro de 2015 começamos o processo de fertilização. Eu sempre quis saber como era ter a barriga de grávida, então decidimos que faríamos uma fertilização com os óvulos da Mari e espermatozoides de um banco de sêmen, e implantaríamos o embrião em mim.

Primeiro, o especialista estimulou a produção de óvulos da Mari, que teve nove folículos. Tivemos um só embrião, mas não vingou. Partimos para a segunda fertilização. Foram sete folículos e transferimos dois embriões. Não deu certo novamente.

Lembro que as duas vezes em que peguei o resultado negativo do Beta HCG foi frustrante e difícil. Todo o processo é muito estressante porque tem o desgaste emocional somado aos hormônios que a gente toma. Eu fiquei muito inchada, cheguei a ficar deformada e engordei 6 quilos. Emocionalmente, fiquei muito sensível e irritada. O procedimento em si não foi ruim – eu fiz uma histeroscopia que doeu, mas não era nada se comparado à questão emocional.

Aí fiz uma série de exames. Eu tinha uma deficiência de proteína S*, o que podia atrapalhar a fixação dos embriões. E tinha também uma mutação genética, que não lembro exatamente qual era. Eram pequenas coisas que somadas poderiam trazer uma dificuldade. Fizemos, então, o procedimento pela terceira vez. Eu pedi para o médico transferir um só embrião porque tinha medo que fossem gêmeos, mas ele nos sugeriu transferir os dois, mesmo.

O pedido médico dizia para fazermos o Beta em uma segunda-feira, mas estava tão ansiosa que não aguentei esperar. Fiz um exame de farmácia no sábado. Deu positivo, mas liguei para o médico para confirmar.  Afinal, eu estava tomando tanto hormônio que fiquei com medo que estivesse mascarando o resultado. Ele disse que não existia falso positivo. Foi muita alegria. Mesmo assim, na segunda fiz o exame de sangue e o resultado foi bem alto. Eu já desconfiei que eram gêmeos.

Com seis semanas de gestação, eu estava viajando e tive um sangramento. Fiquei supernervosa. Quando cheguei no Brasil, 5 dias depois, fizemos o primeiro ultrassom e já vimos os dois corações batendo.

A gestação foi tranquila, engordei só 12 quilos e fiz acompanhamento nutricional e de acupuntura. Até o sexto mês, eu tomava injeção na barriga todos os dias por causa da questão da coagulação. O parto foi uma cesárea de emergência porque minha bolsa estourou e entrei em trabalho de parto. Mas tudo correu bem.

Ainda temos um embrião congelado e pensamos em fazer o processo contrário: a Mari engravidar com um óvulo meu. Estamos até guardando as roupinhas para outro filho e temos vontade de adotar também.

Hoje, eu diria para quem está tentando engravidar que é importante ser persistente e se manter positivo. A gente tem que parar de se culpar e achar que o problema é a gente. Porque às vezes não é… é apenas uma questão de momento”.

 

Julia Gutnik, de 33 anos. Ela e a Mariana Quintanilha, de 35 anos, são mães do Gabriel e da Stella, de 3 meses

 

*A proteína S é um anticoagulante natural. Se existe um desequilíbrio dela no organismo, isso pode resultar em trombofilia, uma das principais causas de perdas espontâneas.


Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *