Uma carta aberta ao pai do meu filho

Meu amor, já houve noites frias e escuras em que eu tentava – em vão – chorar escondida no banho para não levar para o quarto mais uma vez a tristeza de não conseguir engravidar.

Tenho para mim que, além da habilidade de ler meus pensamentos, você desenvolveu uma audição hipersensível, que detectava mesmo a mais silenciosa das lágrimas a metros de distância. Mas isso é conversa para outro momento.

Eu queria lembrar agora do quanto você me abraçava forte enquanto eu soluçava e como sempre ia ao médico com um lenço no bolso antevendo o choro que, invariavelmente, me transbordava a cada consulta.

Trago fresco na memória o dia em que te pedi para me deixar porque eu não poderia te dar filhos. De como meu coração sangrava toda vez que você brincava com nossos sobrinhos – os da nossa família e os filhos dos nossos amigos. Eu pensava que não era justo uma alma como a sua não deixar um legado a esse planeta. Seu carinho, suas brincadeiras divertidas, seu jeito de ensinar… eles precisavam de alguém para receber diariamente todo esse amor.

Lembro também quando começamos a considerar a adoção – assunto não tão simples como parece para quem não o vive. Uma noite, meu amor, eu te disse: “parece que estou vivendo um pesadelo. Não acredito que nunca vamos ter um filho”, e você me respondeu, leve e divertido: “você, eu não sei. Mas eu vou ser pai. Tenho certeza. De um jeito ou de outro”.

E você estava certo, como (quase) sempre. Depois de sete anos, como você contou nesse depoimento aqui, estávamos abrindo o resultado online do Beta Hcg. Quer dizer, você estava, porque eu não tive coragem. Prudente, ligou ao laboratório para saber do médico o que aquele 86 significava. Positivo! Finalmente, as lágrimas que você guardou por tanto tempo rolaram junto das minhas.

Começaram os preparativos: consultas de pré-natal, exames de sangue (sempre segurando a minha mão), enxoval, quartinho… quando pensamos o chá de bebê imediatamente você sugeriu que os presentes fossem doados a uma casa transitória, o que não me surpreendeu. Afinal, se todos fossem iguais a você…

Em novembro de 2018, nasceu nosso Raul. Na internação inesperada, você administrou tudo sem sair do meu lado. Nas contrações, segurou a minha mão até eu quase esmagá-la. Me ajudou a entrar e sair da banheira na sala de parto e respirou fundo, confiante diante da minha decepção de não ter tido um parto natural. Sorriu e me disse: vamos conhecer o nosso filho!

Escolheu a música do nascimento dele, que você cantava pra mim desde os tempos de namorados, cortou o cordão umbilical, ajudou o Raul a encontrar meu seio e não saiu do lado dele um segundo. Aprendeu a enrolá-lo no charutinho antes que eu. E a dar banho. 

Hoje, eu passo o tempo todo em casa com ele e, quando você chega à noite, é o melhor momento do nosso dia. Não só porque ninguém conta a história do Sapo Bocarrão como você, nem só porque “tomar banho com o papai é bommmm”, como cantamos todas as noites. Mas porque você é nosso super herói, nosso amor e nossa alegria. E isso, meu amor, faz todo sentido!
Feliz dia dos pais!


6 thoughts on “Uma carta aberta ao pai do meu filho

  1. Erica Responder

    Lindo depoimento, daqueles que dão nó na garganta, sabe? Cada palavra, frase, pensamento, nos faz pensar como somos pequenos diante de sonhos que parecem ser grandes demais para nossas forças e corações. Parabéns por sua historia, sua família e por esse belo trabalho de compartilhar e acolher pessoas com o mesmo objetivo que vocês.

    1. Pri Portugal Responder

      <3 obrigada, Erica, desejo que se sinta sempre acolhida aqui no site. Bjinho, Pri

  2. Ana Responder

    Nossa!!!! Chorei horrores!!!! Sua história é maravilhosaaa!!! Que Deus abençoe sempre sua vida e de toda sua família. Estou passando por isso, há 2 anos… meu marido ginecologista/obstetra, com baixa qualidade de esperma e. Eu com SOP. Ninguém merece isso!!!! Como vc, meu sonho sempre foi engravidar!!!! Choro todos os dias, a tristeza me consome em certos momentos, o desespero toma conta de mim. Não tenho com quem contar, não quero falar para ninguém, pois de tanto me perguntarem, acabei falando que havia parado de tomar anticoncepcional (sendo que já havia parado há mais de ano) , acaba que as pessoas deduzem, o que me faz ainda pior, pois me afasto de todos que amo. Agora meu marido está fazendo um novo tratamento, se Deus quiser, data tudo certo. Não aguento mais esse pesadelo.
    Desculpe o desabafo. Que Deus abençoe sempre vocês. Um abraço.

    1. Pri Portugal Responder

      Seja bem-vinda ao Cadê, Ana. Fique à vontade para desabafar e pode contar com a minha torcida sempre. Dá uma pesquisada em “microtese” aqui no site e em “SOP”, tem alguns artigos que podem ajudar vcs. Bjinho

  3. Fernanda Responder

    Pri descobri o seu site hj, e que sorte a minha! E como esse texto definiu o meu esposo neste momento, ainda não conseguimos, mas ele me diz exatamente essa frase : “você, eu não sei. Mas eu vou ser pai. Tenho certeza. De um jeito ou de outro”.

    1. Pri Portugal Responder

      Que sorte a sua, Fernanda, de ter um esposo companheiro nessa luta que não é fácil. Mais amor ainda para vocês <3. Estou na torcida. Bjinho, Pri

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