“Tive uma gravidez ectópica, quase morri e depois descobri endometriose profunda. Minha única chance é fazendo uma FIV, mas não quero”

“Eu sou a caçula de dez filhos, sendo nove mulheres. As minhas seis irmãs casadas tiveram filhos e precisaram operar para não ter mais. Meu irmão, também casado, tem dois filhos e minha cunhada se cuida para não vir um terceiro… Eu sempre achei que comigo não seria diferente, afinal, venho de uma linhagem de fertilidade: minha avó teve 15 filhos! Só que para minha surpresa não foi assim que aconteceu…

Eu me casei tarde, aos 30 anos, e desde então nunca tomei nenhum tipo de contraceptivo, pois queria engravidar logo no início. Os anos se passaram e não conseguíamos. Fomos a inúmeros médicos e a única coisa que descobri foi que eu tinha problemas hormonais, pois desde a adolescência sofria com uma menstruação intensa durante mais de dez dias. Isso piorou depois de casada, quando tive menstruações intensas que chegaram a durar de 30 a 40 dias ininterruptos. Fiz milhares de exames, mas os médicos nunca chegaram a uma conclusão. Eles diziam que podia ser excesso de peso.

Até que em 2013, em um desses casos de menstruação contínua, comecei a sentir dores absurdas. Meu corpo tremia de uma forma incontrolável e achei que era dor de estômago. Fui ao hospital e passei a noite recebendo soro e medicamentos. Mas uma semana depois voltei ao hospital com o mesmo quadro, acrescido de duas convulsões que tive durante o trajeto. Ao ser atendida, tive uma terceira convulsão e descobri que estava grávida. Na hora foi um susto. Como assim? Por que sentia tantas dores?

Na verdade, era uma gravidez ectópica na trompa direita. Eu não sei se vocês sabem, mas na gravidez ectópica a probabilidade de morte da mulher é alta, pois o órgão se rompe e, se a operação não for feita de emergência, pode ocorrer hemorragia interna. Fui para a cirurgia, perdi muito sangue… e perdi meu bebê. O sonho acabou ali. A recuperação foi dolorida, tive muito medo de morrer, tive depressão e sofri muito.

Depois, comecei um tratamento com uma ginecologista maravilhosa do Hospital Nipo-Brasileiro, que não só me pediu os exames, mas também me encaminhou para um especialista em infertilidade. Novamente fiz vários exames, de Papanicolau a colposcopia, que foi bem incômoda pois na hora da biópsia senti muita cólica. O pior foi a histerossalpingografia, porque a primeira médica não conseguiu posicionar o tubo no meu útero. Dias depois, a segunda médica conseguiu, porém não foi no local correto e o resultado foi assustador, pois mostrava que eu não tinha passagem no útero. Mais tarde, levei a imagem a outro médico, que descobriu que o exame tinha sido feito errado e o diagnóstico também. Ufa!

Na sequência, fiz uma ressonância magnética de abdômen que mostrou a endometriose* profunda. Pedi, então, para seguir com uma colonoscopia, para ver se o endométrio já não estava envolvendo o intestino, visto que tenho histórico na família de câncer de intestino. Depois de todos estes exames, o médico deu meu diagnóstico.

Não lembro exatamente o nome da doença, mas ele me explicou que, normalmente, o óvulo sai do ovário, vai para uma das trompas e lá é fecundado. Após a fecundação, a trompa empurra o óvulo fecundado para o útero, onde começa o processo de desenvolvimento do bebê. O problema é que eu já perdi a trompa direita na gravidez ectópica e a minha trompa esquerda não faz esse processo corretamente. Então, eu tenho grandes chances de ter outra gravidez ectópica, mas agora na trompa esquerda. Sem contar a endometriose.

Aí, ele me deu a opção de fertilização in vitro**, mas meu marido e eu não quisemos por inúmeros motivos. Um deles é a nossa religião. Somos católicos praticantes e entendemos que Deus tem um propósito para tudo. Se Ele não quis assim, talvez tenha outros planos para nós. Tem também a questão financeira: me passaram o valor de R$10 mil, que não é um valor tão alto por se tratar de um filho. Mas não existem garantias no procedimento.

Confesso que várias vezes me sinto fracassada e incompetente, afinal, todos de minha família são férteis. Para mim, é de uma dor enorme, mas me apego a Deus para suportar tudo isso. Agradeço a oportunidade de poder falar e ajudar outras tantas mulheres a não enfrentarem isso sozinhas”.

Glaucia Vilela Lacerda, 40 anos

 

*Saiba mais sobre endometriose aqui. E sobre fertilização in vitro, aqui.

 

 


7 thoughts on ““Tive uma gravidez ectópica, quase morri e depois descobri endometriose profunda. Minha única chance é fazendo uma FIV, mas não quero”

  1. Eliane Alexandre Responder

    Olá Glaucia, boa noite!
    Li sua história e logo venho a minha mente a história de uma Grande amiga. Ela sofria de endometriose severa e os médicos tinham retirado toda esperança dela e aos 45 anos descobriu que estava grávida e o João Lucas nasceu lindo e hoje estão super bem.
    Eu creio no poder e na vontade de DEUS, ciente xe que a Vontade de Deus sempre será Boa, Perfeita e Agradável.
    Seja abençoada!

  2. Eu Responder

    Olá,
    Tenho tudo igual (só muda a parte da trompa direita e esquerda). Estou desesperada, desanimada e necessito de ajuda psicológica.

    1. Pri Portugal Responder

      Oi, tudo bem?
      Entendo como vc está se sentindo. Essa nossa luta é mesmo uma dor enorme e, quando não conhecemos mais ninguém que passe por ela, solitária. Criei o site justamente para nos apoiarmos mutuamente e percebermos que não estamos sós. Seja muito bem-vinda e sinta-se abraçada. Se quiser acompanhar nossas conversas e ver sempre as atualizações do conteúdo do Cadê, siga nossa página: facebook.com/cadeomeunenem. Por lá, sempre trocamos ideias e sentimentos <3 e estou disponível para conversar sempre que você quiser. Fique bem. Bjinho. Pri

  3. Alinne Responder

    Procura a Dra Érica Mantelli no instagram , ela tinha endometriose e hoje tem duas filhas. Engravidou naturalmente,ela cuida se casos assim e sempre com sucesso!

    1. Pri Portugal Responder

      Linda ideia, Alinne <3.

  4. nara Responder

    Olá meinas, tb passei por isso a 49 dias atras. Criei um canal no youtube para contar o meu depoimento, o que eu senti, qual foi o meu tratamento e como esta sendo minha recuperação, espero poder ajudar de alguma forma.
    Acesse: https://youtu.be/2LhxjnCDVGs

    1. Pri Portugal Responder

      Sinto muito pela sua história, Nara, e obrigada por dividir. É importante notar que não estamos sós <3.

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