O mito do amor materno: um livro que pode acalmar seu coração

As dores e delícias da maternidade, as etapas de vida do bebê, os segredos para uma gestação feliz… não faltam publicações que falem lindamente com a mulher que já engravidou. Agora livros que acalmem nosso coração enquanto isso não acontece são bem mais raros.Por indicação de uma amiga, li “Um amor conquistado – o mito do amor materno”, livro da autora francesa Elisabeth Badinter, lançado no Brasil em 2005 e já esgotado (consegui o meu em um sebo). O livro é um recorte social da França e traz a visão claramente feminista da autora. Tendo isso em vista – ou seja, ele não é nem pretende ser uma verdade absoluta – vale muito a leitura.

Vale porque a nossa geração de mulheres cresceu em um universo em que a maternidade é muito romântica. A imagem de gestar, ver crescer o barrigão, ter um parto (de preferência normal e humanizado), amamentar e ninar seu bebê é quase mágica. Parece que você não é uma mulher completa se não passar por isso.

E com esta visão, muita gente sofre. Quem engravida, mas tem uma gestação complicada, quem tem uma depressão pós-parto, quem tem um puerpério difícil e quem não deseja engravidar. Sofre também quem, como nós, quer engravidar, mas não consegue e, mesmo assim, enfrenta cobranças.

O livro

O que Elisabeth mostra neste livro é um outro lado da moeda: que o instinto materno é um mito, construído socialmente. Com fatos e dados históricos da França do século XVIII, ela faz ver que a gravidez e até o bebê eram vistos como estorvos. Inclusive, para mostrar seu poder aquisitivo, as aristocratas mal pariam e já enviavam seus bebês para a casa de uma ama até quando saíam da infância.

Segundo o recorte da autora, a mulher só passou a desejar a maternidade quando percebeu que o lar era o único espaço reservado socialmente para ela. Só ali ela podia tomar decisões e ser ouvida – o que claramente não acontecia em outras esferas, como o mercado de trabalho. Foi aí que a maternidade se tornou romântica e desejada. Indiretamente, ela é fruto do machismo, olha que loucura.

Concorde-se ou não com esse ponto de vista, a verdade é que ele traz algo que eu, pessoalmente, nunca havia sequer questionado. Não por ser uma romântica: estou mais para feminista que para princesa que espera o príncipe encantado. Mas porque de todas as verdades que, como jornalista, estou acostumada a questionar, esta nunca foi uma delas.

Ser mãe, para mim, sempre foi um fato inquestionável na completude de ser mulher. E ver uma visão diferente, de que isso é cultural (e não inato do ser humano), abriu meus olhos para muita coisa. Inclusive para aceitar a adoção com o coração mais leve. “Gestar e maternar são duas coisas bem diferentes”, me disse, inclusive, a psicóloga que está acompanhando nosso processo. E você, com certeza, vai lembrar de alguma amiga que engravidou com facilidade, mas maternar não parece algo natural para ela. É isso. Não é preciso parir para ser mãe nem sentir a necessidade de maternar, mesmo se a mulher engravidou naturalmente.

Tirar essa “magia” da gravidez, essa fantasia de perfeição, e separar o ato de engravidar do ato de cuidar e educar uma criança tirou um peso das minhas costas. E eu sou grata a Elisabeth Badinter por ter me trazido isso. Mesmo que seja um livro difícil de encontrar, achei que valia trazer para vocês porque nunca é demais repensar nossos conceitos. Principalmente quando isso traz leveza à vida.

 

Foto: Flickr/ Brian Jeffery Beggerly


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