“Tenho facilidade para engravidar, mas tive três gestações que não chegaram ao fim. Minha história mostra que tem coisas que não controlamos e elas nos desesperam e doem”

“Minha história é longa, talvez a mais longa que vocês verão neste site.  Mas não desistam de ler, ela tem um final feliz.

Tudo começou em dezembro de 2010, quando eu e meu marido decidimos ter um filho.  Nós estávamos juntos há pouco tempo, meses na verdade, mas eu tinha 33 anos e ele, 34. Era a hora, achávamos. Engravidei na primeira tentativa. Ficamos tão felizes que contamos para toda a família. Fui à consulta com o gineco, escutei o coração do bebê e estava radiante. Mas no primeiro ultrassom em laboratório, a médica disse: ‘o coração não está batendo’. Me senti destroçada. Tinha um aborto retido. Pirei uns três meses pesquisando tudo sobre o assunto na internet e resolvemos tentar de novo. Engravidei na primeira tentativa. E tive uma gestação de filme, perfeita, sem dor, sem incômodo, linda. Minha filha, a Mônica, nasceu em janeiro de 2011. Aí vocês me perguntam: o que alguém com tanta facilidade de engravidar está fazendo neste site?

Bem, eu estava feliz com apenas uma filha, de verdade. Mas diante do fato de ter tido apenas um aborto e isso ser considerado corriqueiro pelos médicos, eu resolvi ter um segundo filho. Aí a história desanda.

Fiquei grávida no início de 2013, quer dizer, o teste deu positivo, mas quando fui ao médico ele me disse que era uma gravidez anembrionária, isto é, tinha saco gestacional (onde fica o bebê), mas não tinha bebê. Novo sofrimento. Ainda assim, pensei que seria com da primeira vez: um aborto e depois uma linda gestação. Então, sem esperar muito (cagada horrível), eu engravidei em julho do mesmo ano. Estava nos EUA com meu marido e filha quando descobri. Bebemos champanhe, tiramos fotos, alegria total. No voo de volta, comecei a sangrar. Foi um desespero: ninguém tinha absorvente a bordo e nada podia ser feito. Voltei literalmente encharcada e desesperada. No dia seguinte, nem fui ao meu médico, fui ao hospital tentar nova curetagem. Mas a médica de plantão disse que o bebê estava com os batimentos cardíacos em ordem e parecia tudo bem. Senti tanto alívio! E imaginei que só ficaria de repouso.

Agora, quem quiser continuar a ler precisa ter paciência…

Quando fui ao meu médico, ele achou estranho. Disse que o bebê estava próximo ao colo do útero, ou seja, no lugar errado. Ele desconfiava da raríssima placenta acreta, mas não dava para ter certeza porque a placenta termina de se formar em 12 semanas. Fiz exames e passei por especialistas. Adivinha? Estava com a tal placenta. Uma breve explicação leiga: a placenta vai crescendo desenfreadamente e pode ultrapassar as paredes do útero, invadir outros órgãos e a mãe morrer de hemorragia. Este era o meu diagnóstico e por isso a recomendação de todos era por fazer um aborto em um hospital.

Agora, veja o desespero. Eu tinha desejado um filho, que estava bem, e eu tinha que tirá-lo pelo grande risco de que eu morresse. Foi a decisão mais difícil da minha vida e, quando a tomei, me internei no hospital. Mas a saga continuou. Como o aborto é proibido no Brasil, uma junta médica teria que aprovar o procedimento. Acontece que um diretor do hospital Santa Joana achava cedo, dizia que a placenta poderia não crescer tanto. Nesse caso, o bebê se desenvolveria bem. Iria nascer prematuro, mas com as técnicas de hoje, daria tudo certo. Eu e meu marido ficamos tão aliviados e felizes.

Mas tive hemorragias e vários outros médicos diziam que eu estava correndo muito risco, que eu TINHA que abortar. Fiquei lá dez dias e não consegui a autorização. Fiquei confusa, muito confusa com as indicações. Há pouco material no mundo sobre placenta acreta e eu li tudo que encontrei.

Fiquei de repouso por meses, ia trabalhar às vezes para esfriar a cabeça, mas a cada exame, cada ultrassom e ressonância – que eu fazia toda semana –, a coisa piorava. O bebê crescia bem, mas a placenta também não parava de crescer. Havia ultrapassado meu útero, chegava próximo à bexiga e eu poderia morrer a qualquer momento se não chegasse a tempo no hospital. Agora já era tarde para o aborto.

Rezei, chorei, não dormi por meses. Envolvi todos que me conheciam porque os resultados eram semanais e eram ruins, sempre ruins. E doía. Doía muito fisicamente e muito mais psicologicamente. Quis tanto aquela menina…

Mas Deus a quis também. Em uma manhã, quando fui ao banheiro, um pé caiu de dentro da minha vagina. Eu poderia poupá-las dessa parte, mas é o que ilustra meu desespero. Fiquei tão em pânico que não raciocinava, dizia a mim mesma que era apenas um pé, que a criança estava bem, apenas não teria um membro e que eu cuidaria dela. Do outro lado da porta do banheiro (que fechei rapidamente) estava minha filha Mônica, de dois aninhos chorando e querendo saber porque eu gritava. A minha bebezinha estava despedaçada. A placenta ‘mudou de lado’ e começou a ‘andar’ para o lado da bebê.

Eu já estava de seis meses, ela tinha nome e roupinhas, porque seria prematura. Nunca senti nada igual e acho que só tem uma dor pior: perder um filho que já está entre nós. A minha placenta era acreta percreta, a mais rara, e faz estrago em vários órgãos. Fiz um procedimento bem pouco usual no mundo para este tipo de caso, uma tal embolização, que corta as artérias que levam sangue para o útero, e não precisei tirar o órgão, tudo para que eu não morresse de hemorragia.

A recuperação foi difícil e fiquei um ano e meio com sangramento, enquanto caía a placenta que foi necrosando. Era uma sensação diária de insucesso, uma dor que se repetiu por um ano e meio a cada ida ao banheiro… E continuava com exames invasivos e doloridos, internações e tudo mais.

Ao fim, tive a liberação médica para uma vida normal, mas não poderia nunca mais engravidar para não correr este risco novamente. Mas eu já tinha uma filha e foi nela que me apoiei para ser feliz. Só que aconteceu. Em janeiro de 2015 engravidei sem querer. Sem querer mesmo, quase impossível, não estava ovulando, não tinha condições físicas (os médicos diziam), mas estava lá, um bebê.

Desta vez, ele estava bem posicionado, mas quando a placenta terminou de se formar, vi que era acreta e que viveria tudo de novo. Os médicos pediram que eu aguardasse. Eu estava atônita, nem conseguia ficar feliz, nem triste, nem nada. Foi uma gravidez horrível, não consegui curtir um único minuto. Voltei a fazer exames semanais (como isso me irritava!), a repousar e a rezar. E como rezei, como prometi, como me esforcei! E o fim? Bem, o fim é maravilhoso. Vou poupá-las da cirurgia médica – que levou seis horas, com mais de 20 profissionais na sala – e da recuperação que levou meses de dor intensa e desesperadora, para dizer que a minha nova menina nasceu. A Angélica veio ao mundo pequena, mas pouco prematura, linda, perfeita. Os dias na UTI que se sucederam ao nascimento foram péssimos, a dor em casa, por semanas, muito mais, mas a carinha dela salvou tudo e por ela faria tudo de novo.

Enfim, sei que este depoimento não ajuda quem tenta engravidar, porque tenho facilidade nesta questão, mas mostra que tem coisas que não controlamos e elas nos desesperam e doem.  Ainda penso muito na pequena que perdi, ela sempre será um vazio para mim. Acho que há várias maneiras de ser mãe (fizemos os trâmites da adoção antes de eu engravidar da Angélica) e penso que quem tiver tentando pode e deve tentar todas as formas porque a vida é, sim, infinitamente melhor com filhos”.

 

Fernanda, 40 anos


10 thoughts on ““Tenho facilidade para engravidar, mas tive três gestações que não chegaram ao fim. Minha história mostra que tem coisas que não controlamos e elas nos desesperam e doem”

  1. Teresinha Matos Responder

    Lindo e sensível texto Fernanda!! Muitas bênçãos para sua linda família. Bjs

  2. Patrícia Büll Responder

    Oh fê. Ainda fico triste relendo uma história que já conheço. Nem consigo imaginar como foi… Beijo meu bem.

  3. Gabriela Lopes Responder

    Olá!
    Adorei o texto… tbm tenho facilidade em engravidar.
    Em Minha primeira gestação o bebê não desenvolveu e fiz curetagem com 7 semanas…
    Estou na segunda gestação e no último domingo, com 12 semanas, tive um sangramento onde um coágulo enorme foi eliminado e confundido pelos médicos com aborto… ao fazer a ultrassonografia que me levaria para a curetagem, descobrimos que meu bebê estava lá, vivo e bem e que, na verdade, eu estava com um descolamento.
    Escrevo esse comentário na cama do hospital, em repouso absoluto, e com muita esperança de que também terei meu final feliz.
    Apesar de ter facilidade em engravidar (engravidei de primeira das duas tentativas), a dor de perder um filho é muito profunda e nem me imagino passando por isso outra vez!
    Obrigada por compartilhar sua experiência!!!

  4. Paula Rangon Responder

    Fernanda, também tive um bebê, que os médicos achavam que seria possível engravidar, mas ele está aqui com quase quatro anos, lindo, esperto e a razão de nossas vidas. Há um ano, também sem querer, engravidei de novo, e também tive a gravidez anembrionaria. Sofremos muito, mas estamos aqui. Meu filhinho é a prova viva que existem milagres e que temos que acreditar em nossos sonhos. Agradeço a Deus todos os dias pela vida e saúde dele. Nunca temos que desistir de um sonho, por mais impossível que possa parecer. Você sempre foi essa mulher forte e com garra e sempre te admirei por isso. Dê um beijinho doce em cada menininha, que por sinal, são as suas cópias (rsrs) e boa sorte para você e toda a sua linda familia. Beijão. 🙂

  5. Lilian Responder

    Fernanda, que história impressionante, quanto o gestar é permeado por mistérios e dificuldades que nem podemos imaginar. Sei exatamente a dor de perder um filho ainda na gestação, mas confesso que tua perda me deixou ainda mais comovida e abalada. Fico feliz que tenhas tido tua bebê arco-íris apesar da gestação e recuperação difíceis. Fiquem com Deus!

    1. Pri Portugal Responder

      Lindo comentário, Lilian, vou encaminhar para a Fe. E seja muito bem-vinda ao Cadê Meu Neném? <3. Beijinho, Pri

  6. Cris Evelin Responder

    Olá, eu estou procurando desesperadamente por conteúdos também sobre placenta percreta.
    Eu engravidei a primeira vez no primeiro mês de tentativa em maio/2016 foi tudo bem durante a gestação e no final tive um descolamento de placenta e foi feita a cesárea o médico me explicou que deveria esperar 2 anos pra uma nova gestação por causa da cicatriz no útero. Ok esperei exatamente dois anos e em janeiro/2018 novamente engravidei com facilidade, mas desta vez tive vários sangramentos, porém a cidade que moro agora é pequena e não tem infraestrutura médica para diagnóstico rápido, na metade de fevereiro foi constatado o aborto e indicado curetagem, porém 45 dias depois meu sangramento não parava fui internada novamente e então houve a hipótese de placenta percreta ou gestação molar, a princípio foi indicado histerectomia total, mas virá um médico de Curitiba fazer uma histeroscopia e retirar apenas o conteúdo, mas fará uma laqueadura pra não correr riscos novamente. Fico aqui com medo de morrer e pensando que bem não me deve fazer ficar apodrecendo por dentro, estamos no dia 18/05 e até agora não marcaram a cirurgia simplesmente por problemas burocráticos do SUS. Enquanto isso fico eu aqui soltando “pedaços” cada vez que vou ao banheiro, pelo menos agora os níveis de bhcg está baixando (5.000) e não tenho mal cheiro…

    1. Pri Portugal Responder

      Cris, te mandei um e-mail. Sinta-se abraçada. ?

  7. Jocilene Rodrigues Barros Responder

    Estou passando por isso, primeiro filho um aborto com 17 semanas, sabíamos que tinha placenta prévia central parcial, fiz repouso, usei todas as medidas, porém o BB não resistiu, na culetagem foi diagnosticada placenta percreta, interior, primeiro opção era controla a hemorragia, após fazer a retirada do útero, mas Deus tocou no coração da minha médica, é estamos arriscando um tratamento com metotrexato
    (quimioterapia) para preservar o útero, para que no futuro eu possa engravidar novamente. Fico feliz em saber que depois de tudo teve pessoas que passou por isso e teve sucesso, isso nos dá força para continuar.

    1. Pri Portugal Responder

      oi, Jocilene, bem-vinda ao Cadê. Desejo que se sinta acolhida aqui. Eu e a Fe estamos na sua torcida! Bjinho, Pri

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