“Tive uma gravidez ectópica, perdi as duas trompas e precisei fazer uma rifa para pagar a FIV”

“Desde que me casei, há 11 anos, decidimos que teríamos nosso primeiro filho depois de 5 anos. Nunca tive problemas de saúde, tinha a menstruação regulada e imaginava que engravidaria no mês que eu quisesse.

Era janeiro de 2012 e eu já comecei a ficar ansiosa. Senti algumas dores no abdome, que foram se tornado insuportáveis. Com a barriga inchada e uma dor intensa, fui ao pronto-socorro por dias seguidos, mas não tive nenhum diagnóstico. No quinto dia, quando estavam me preparando para uma cirurgia de apendicite, fiz, entre os exames pré-operatórios, um de gravidez. Eu tinha certeza de que não estava grávida, pois tinha tido um sangramento menstrual havia pouco tempo, mas para nossa surpresa o beta hcg veio positivo. Eu estava grávida! Mas nem tive tempo de comemorar: a médica me deu a notícia de uma forma bem fria e logo me disse que as minhas dores tinham uma explicação: era uma gravidez ectópica.

Foi um susto enorme. Saí do P.S. e fui falar com meu ginecologista. As datas daquela última menstruação que tive não batiam, então o doutor me deu um remédio e pediu para esperar por até três dias e repetir o ultrassom. Surgiu uma esperança: será que aquele feto ainda poderia ir para o meu útero? Afinal, por que eu estava sentindo tanta dor? Fomos então pra casa aguardar os três dias. Porém, no dia seguinte, levantei me sentindo muito pior. Fiquei por quase uma hora debaixo do chuveiro para ver se a dor acalmava. Saí de lá muito pálida e sentindo fraqueza, então decidimos ir ao P.S. da maternidade, com os exames e o pré-diagnóstico de gravidez ectópica.  

Quando chegamos lá, eu já não conseguia mais parar em pé. Me lembro de entrar na emergência, ouvir meu esposo falar com a médica sobre a gravidez ectópica e entrar em choque. Em cinco minutos eu estava no centro cirúrgico, aberta, com hemorragia interna severa e pontos de necrose em minha trompa. Acordei depois da cirurgia chamando por meu filho. Só então eu soube que, além de não ter mais um bebê, também não tinha mais a minha trompa. Embora estivesse muito agradecida a Deus por estar viva, pois os médicos disseram que se demorasse mais alguns minutos para ser operada eu não iria resistir a hemorragia, eu estava profundamente triste. Internada ali, em uma maternidade, ouvindo chorinhos de bebês, tendo que me conformar que o sonho de ser mãe estaria um pouco mais distante.

Em março, eu já estava liberada para novas tentativas e muito confiante, pois meu médico dizia que é muito comum as mulheres engravidarem tendo apenas uma trompa. A esse ponto, a ansiedade já estava a mil. Todos os meses, de março a setembro, eu tinha sintomas de gravidez. Cheguei a ir ao pronto-socorro para fazer um pedido de beta hcg, que deu negativo.

Em setembro, fui fazer um ultrassom de rotina e, conversando com a médica durante o exame, o chão desabou na minha frente. Eu não tinha nenhum problema no útero, mas minha única trompa estava completamente comprometida. Eu estava infértil. Aquele 2012 estava acabando triste pra mim. Não havia mais esperanças de gerar um filho. Até que…

Vi uma entrevista pela TV com um médico especialista em reprodução humana falando sobre tratamentos para infertilidade. Havia uma esperança para nós. Para a fertilização in vitro, eu não precisaria das trompas que não tinha mais devido à gravidez ectópica. Mas eu esbarraria em um novo problema. Agora, financeiro. Meu esposo e eu somos voluntários em uma agência missionária, então não temos renda fixa e jamais conseguiríamos o valor para um tratamento como esse. Só que nesse momento o desejo de sermos pais já falava mais alto do que qualquer dificuldade.

Então, decidimos fazer uma rifa entre amigos para levantar o valor da FIV, em uma clínica de São Paulo que oferece tratamentos a baixo custo. Muitas pessoas se envolveram e venderam os carnês para nós. Assim, conseguimos o valor. Estávamos plenamente confiantes… até o dia do beta hcg. Deu negativo. Só quem passou por isso sabe o que é a frustração de ver aqueles números.

No ciclo seguinte, fizemos a transferência de embrião de três dias (D3) que estava congelado. Foram 12 dias esperando o resultado e sentindo sintomas completamente diferentes da primeira FIV. Agora sim eu tinha certeza de que estava grávida! Não queria nem fazer o beta, só esperar a barriga crescer. Mas a verdade é que eu tinha medo do resultado e não queria passar novamente pela frustração de ver um negativo ou uma gravidez ectópica. No 12° dia, não me esqueço do olhar do meu esposo quando abriu o exame. Era negativo mais uma vez.

Não teria mais condições de tentar, não tinha mais dinheiro para fazer novamente. Tinha que me conformar, talvez Deus não quisesse que eu fosse mãe. Foram meses de tristeza. Porém, dentro de mim, a esperança não havia morrido. Não tinha dinheiro para outra FIV e ainda tinha que contar tudo sobre o tratamento e o negativo para todas as pessoas que se dispuseram a nos ajudar comprando a rifa. Era doloroso demais.

Eu queria muito saber por que não havia conseguido. Passava os dias pesquisando motivos de falhas de implantação, tentando descobrir quais exames eu poderia fazer… Ia à ginecologista com uma lista enorme de exames para que ela me fizesse os pedidos. Alguns ela nem conhecia.

Aí, marquei uma consulta com um especialista conhecido, simplesmente para ouvir a opinião dele sobre os meus negativos. Levei o que eu tinha e estava tudo normal, mas ainda havia uma linha de investigação que eu não conhecia: a trombofilia. Descobri, então, a SAF (Síndrome antifosfolípide), um tipo de trombofilia adquirida. Para tratá-la, eu teria que usar diariamente injeções de anticoagulante ao fazer uma nova FIV.

Fizemos nossa última tentativa, pois usando o anticoagulante poderia dar certo. Transferimos o penúltimo embrião congelado e, no dia 14 de outubro de 2013, o tão sonhado positivo chegou. Usei clexane durante toda a gravidez até o parto. Tive que vencer o medo das agulhas e em 2 de junho de 2014 nasceu a Carolina. 

Passaram-se cinco anos e veio uma nova rifa. Era uma nova arrecadação e uma nova chance. Aquele último embrião congelado, o nosso picolezinho, resistiu a tudo e, enfim, veio à vida. Em 2 de julho de 2018 nasceu o Leonardo, valente como um leão, assim como o significado do seu nome. Escrever esse depoimento me fez muito bem, pois me fez reviver a gratidão que eu senti, a Deus e àqueles que nos ajudaram a realizar um sonho, que era um, mas que se tornou duas lindas realidades”.

 

 

Midiã Dias de Carvalho, 36 anos, mãe da Carolina, 4 anos, e do Leonardo, 3 meses


2 thoughts on ““Tive uma gravidez ectópica, perdi as duas trompas e precisei fazer uma rifa para pagar a FIV”

  1. Daniela Leite Maldonado Responder

    Tive uma ectopica a 60 dias, depois de ter esperado o positivo por 2 anos… felicidade durou apenas 10 dias, ate os sintomas de dor vir e descobri que infelizmente não tinha sido daquela vez, ter que fazer uma “cesaria” sem estar preparada é muito ruim, dói muito não conseguir o positivo tão esperado, dói muito pq todas as mulheres do mundo estão gravidas menos você… dói muito pensar que eu não poderei gerar um filho. Ainda tenho esperança e fé que em breve vai ser minha hora.

    1. Pri Portugal Responder

      Oi, Dani, vc ainda pode gerar, sim! Olha o depoimento da Marina, que lindo: http://www.cademeunenem.com.br/tinha-endometriose-e-perdi-uma-trompa/

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