“Aprendi a ressignificar a dor de 5 perdas espontâneas e hoje sou realizada como mãe desses anjos e de uma pré-adolescente”

“Dois anos depois de casada, comecei a tentar engravidar e achei que seria rápido, mas estava enganada. Foram 33 meses de tentativas, frustrações e um luto mensal por algo que eu nunca tinha vivido. Era um sentimento bem doído, mesmo. Neste tempo, eu e meu marido fizemos alguns exames simples, que nada detectaram.

Então, partimos para uma videolaparoscopia. Nela, foi verificado que eu tinha uma película em torno dos ovários, mas nada de endometriose. No mês seguinte, fiz controle de ovulação e injeção para ovular. Nada do meu positivo. Tive uma conversa bem sincera com Deus e disse que se Ele não quisesse que eu fosse mãe, por mim, tudo bem. Eu aceitaria, mesmo sem entender.

Foi quando comecei a procurar um Mestrado para cursar e ‘deletei’ o assunto bebê da cabeça. Resultado? No mês seguinte, tinha um exame Beta hcg positivo nas mãos. Até então, este tinha sido o dia mais feliz da minha vida. Com 37 semanas e 3 dias de gestação, enfim, vivi o dia mais lindo da minha vida… O dia em que minha Eduarda nasceu.

Naquele momento, eu tive tantos sentimentos inéditos que nunca esquecerei: um amor visceral, uma gratidão enorme, uma felicidade que não cabia no peito. Então o tempo foi passando. Eu estava realizada neste papel de mãe, com uma bebê que até hoje chamo de ‘CTRL V’, pois é a cara do meu marido (o ‘CTRL C’), e a vida seguia perfeita.

Quando ela tinha um ano e meio, engravidei sem querer. Detalhe: até então achava que eu tinha problemas de fertilidade. Mesmo no susto, a alegria foi enorme. Estava gerando uma vida novamente. Antes de oito semanas, tive um sangramento e meu mundo caiu. Não havia mais batimentos. Da ecografia, fui encaminhada à curetagem. O ano era 2007 e essa era a primeira das minhas perdas espontâneas.

O tempo passou, passei em um concurso e assumi no banco em 2009. Em 2011, sentimos que era hora de aumentar a família. Duda já tinha 5 anos. Engravidei com relativa agilidade e estávamos no céu… Mas novamente vivi um pesadelo: sangramento e ausência de batimentos. O médico que me acompanhava na ocasião repetia o mantra – que hoje vejo ser tão cruel e frio – de que, antes de três perdas espontâneas, a medicina não investiga as causas.

Fazia os exames normais, de toxoplasmose, DSTs… Todos estavam normais. Passado um ano, com acompanhamento de um médico especializado em gestação de risco, devido ao meu histórico, começamos as tentativas. Naturalmente, uns três meses depois, lá estava eu, grávida de gêmeos (bivitelinos). O susto na sala da ecografia deu lugar a uma alegria sem fim e à certeza de que estávamos sendo compensados pela vida.

Este médico, muito prudente, decidiu me afastar do trabalho e entrou com progesterona e AAS infantil profilaticamente. Tudo transcorria bem, tirando minha forma física, já que a gestação gemelar é muito intensa e nosso corpo se modifica quase a olhos vistos. Mesmo assim, estava adorando aquelas formas arredondadas. Depois que nascessem, eu correria atrás do prejuízo. Afinal, o mais importante eu tinha: duas vidas dentro de mim! O resto era irrelevante.

Duda, já com seis anos, se referia aos irmãos com curiosidade e afeto. Então, chegou o pior dia da minha vida. Na ecografia da translucência nucal, eu e meu esposo fomos ansiosos para saber os sexos e se os dois estavam bem. Pagamos o CD com as imagens na recepção e entramos na sala. O olhar daquele médico para aquela sonda e aquele monitor me assombram até hoje. Ele, atônito, procurava por batimentos, e não encontrava. Chamou um segundo médico e a troca de olhares entre eles foi a certeza de que nada estava bem. Eu tinha tido um aborto retido, há quatro semanas, dos dois embriões. Naquele momento, sumiu meu chão.

Ainda hoje não consigo expressar o que senti. Mesmo. Nunca esqueço que quando saímos, as recepcionistas, sempre tão alegres, vieram consternadas até nós. O luto pairava naquele local. Mais uma vez, mais uma curetagem. A mais sofrida, psicológica e fisicamente. Como ainda tinha o tampão, fui induzida com o tal do Cytotec… Quando ele começou a agir, desmaiei no quarto do hospital, tamanha a dor. Foram dias que ainda hoje me são cinzas, porque não consigo ter distanciamento analítico para falar deles.

Duda sentiu muito, bem como nossos familiares e amigos. A vida seguiu, os exames deram normais e, no ano seguinte, tentamos novamente. Novo médico, novos protocolos, mais uma gravidez natural. Fizemos Crossmatch, Cariótipo e tudo o mais. Tudo certo. Mesmo assim, decidimos não contar nem para nossos pais. Parece que estávamos adivinhando: no ultrassom da décima primeira semana, lá estava o monitor preto, sem barulhos nem movimentos.

Incrível que a dor das perdas espontâneas nunca diminui, mas o sofrimento vivido te deixa com uma carapaça mais grossa. Nova curetagem, agora com biópsia genética, feito em laboratório particular. Dois meses depois, o resultado saiu: Síndrome do Cromossomo 22, incompatível com a vida. Os demais quatro bebês nunca saberemos, pois não foram examinados geneticamente.

Então marcamos consulta com o médico deste laboratório e ele pediu uns 80 exames, dois quais eu já tinha feito bem uns 60, ao longo destes anos. Porém, lembro que havia um que eu não tinha feito: o fator VIII. Eis que justamente este deu uma alteração de hipercoagulação. Comecei tratamento com o hematologista, mas eu e meu marido decidimos não arriscar mais. Isto foi em 2014.

Pesamos os riscos, avaliamos os danos e decidimos que ficaríamos apenas com nossa benção, que já estava com 8 anos. Uma filha linda, nascida depois de quase três anos de tentativas, de uma mãe trombofílica e sem saber… Se isso não se parece com um milagre, não sei o que mais é.

Hoje, se pudesse voltar no tempo, eu teria investigado trombofilia desde a segunda perda. Nem que fosse necessário trocar de médico mais de uma vez. Não entendo por que são necessárias três perdas espontâneas para a medicina começar a investigar? Por que tamanha desumanidade? Também me salta aos olhos a falta de sensibilidade dos centros obstétricos para com as mulheres que lá estão para fazer curetagem. Por que não em centros cirúrgicos normais, longe de choros de bebês nascendo e enfeites de porta? Uma mulher esperando uma curetagem é vista com desconforto e como anomalia nos centros de obstetrícia. Tudo fica ainda mais traumático.

Foi na primeira consulta com minha terapeuta que perguntei se um dia a dor dessas perdas espontâneas iria embora. Ela me respondeu algo que mudou minha concepção de muitas coisas: ‘a dor nunca irá embora, mas você vai aprender a ressignificá-la’. Desde então, com a fé em Deus, o apoio fundamental do meu marido e das consultas semanais, tenho aprendido a ressignificar tal sentimento. Há dias mais fáceis que outros. Há dias em que nem lembro que passei por tudo isso. Ao olhar a Duda sinto uma analgesia de alma e sou realizada como mãe – de cinco anjos e de uma pré-adolescente incrível”.

 

Iviane Kuchpil Susi, 41 anos, mãe da Eduarda, 11 anos


6 thoughts on ““Aprendi a ressignificar a dor de 5 perdas espontâneas e hoje sou realizada como mãe desses anjos e de uma pré-adolescente”

  1. Lilian Responder

    Caramba! Me vi nessa história, estou aprendendo que luto nunca vai passar, agora me resta aprender a resignificar a dor, tomara que esse dia chegue realmente.
    Quanto a forma que a perda gestacional é tratada, falta profissionais que nos atendem com respeito e empatia, os ambientes hospitalares completamente despreparados para nos receber, o fato da medicina tomar como protocolo investigar somente após de 3 perdas (será que não sabem o que 3 perdas podem ocosionar ao estado psicológico de uma mulher? Sem falar dos físicos…), tem a ver com o machismo no mundo, afinal é uma dor exclusiva das mulheres.

    1. Pri Portugal Responder

      Menina, sabe que tendo a pensar como vc? É um ranço do machismo mesmo. Além do mais, alguns dos diagnósticos que evitariam essas perdas são simples exames de sangue. A mulher já deveria fazê-los quando começasse a tentar engravidar, né, gente?

  2. Paula Responder

    Os protocolos médicos precisam ser revistos, as pessoas que passam por isso tem as mesmas queixas, que são: tratamento frio e descaso em todos os momentos, seja na perda, pós perda ou na investigação. O sentimento é muito devastador e com o tempo ameniza, claro, mas é um trauma e que se fosse tratado com mais atenção poderia ser menos doloroso. E também são tantas perguntas e questionamentos, todos eles sem respostas, ou com respostas vazias que chegam a irritar… Enfim, falar desse assunto não é fácil, só quem passa sabe… e quem passa, ainda escolhe muito bem com quem vai compartilhar tamanha dor e sofrimento. Parabéns amiga, você que tão naturalmente tem o dom de se expressar com carinho e amor, se encontrou com a hora e o lugar certo para descrever sua história, divulgar e poder ajudar tantas pessoas.

    1. Pri Portugal Responder

      Tem toda razão, Paula, é desumano esse tratamento. Vamos nos unir e apoiar cada vez mais para tentar minimizar essa dor, ao menos um pouquinho, né? <3

  3. Priscila Duarte Responder

    Muito importante a sua história! Muito triste essa descoberta que também fiz sobre a medicina só investigar os casos de aborto na 3a tentativa. Tive 2 tentativas. Meus anjinhos se foram no mesmo dia com 8 anos de diferença. Na primeira gravidez, sem orientação, não sabia que poderia ter acesso a exames do bebê falecido e me conformei a conduzir um luto muito sofrido por longos 8 anos. Na segunda gravidez, fui atrás de informação, mesmo sabendo que já havia perdido (os 10 dias de repouso foram os piores da minha vida como mulher). Lia reportagens em sites especializados, artigos sem parar na esperança de entender o que estava ocorrendo. 1 dia antes da minha 2a curetagem (os dois foram abortos retidos) me orientaram sobre os exames e soube a causa depois de 30 dias. Essa semana fazem 2 meses que minha bebezinha foi brincar com seu irmão em algum lugar. Assim como você falou tive alteração cromossômica e tenho trombofilia. Mas re-significando decidi continuar com os planos de ser mãe e vou adotar em breve. Pode não ter tido uma gestação natural, mas eu escolhi ser mãe e serei. 🙂

    1. Pri Portugal Responder

      oi, Priscila, td bem? Vou mandar seu comentário para a Ivi, ela vai ficar feliz por ter te ajudado de alguma forma. Eu também gostaria de dizer que você é muito bem-vinda aqui no Cadê Meu Neném? e desejo de coração que se sinta acolhida e abraçada. Posso imaginar o tamanho da sua dor e me identifico muito com a frase “eu escolhi ser mãe e serei”. Também estou na fila de adoção e com o coração cheio de amor para distribuir. Gostaria de te convidar a curtir nossa página no Facebook (facebook.com/cadeomeunenem), pois lá divulgamos as datas do nosso grupo de apoio, que teve sua primeira reunião agora em novembro e terá outras no ano que vem. Pode contar comigo para o que precisar. Bjinho, Pri Portugal

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