“Tive ovários policísticos, hidrossalpinge bilateral, descolamento de placenta e um parto de emergência. Quando a médica deu alta, eu a abracei e beijei. Foi um dia muito feliz”

“Conheci meu esposo em 2006 e em 2011 nos casamos. Depois de um ano de casados já tentávamos. Eu vinha de um histórico de síndrome dos ovários policísticos, então achava que seria difícil engravidar, mesmo.  Tentei de tudo: simpatias, garrafadas, ficar de ponta cabeça depois de namorar, indutor para ovular… mas tudo era em vão.

Então, uma amiga de trabalho me contou de um exame que tinha feito para descartar a infertilidade: era a histerossalpingografia. Falei com meu médico e ele disse que não tinha necessidade, mas eu insisti muito e ele fez o pedido. Não consegui pelo convênio, então paguei para fazer. Mas não imaginava o que me esperava nesse exame: senti tanta dor que quase desmaiei e ali mesmo já percebi que não poderia ser normal. Fui embora chorando e me arrastando, não sei bem dizer se era pela dor ou pelo que eu sentia no meu coração.

No final do exame, chorando de dor, perguntei ao médico se estava tudo bem. Ele disse apenas: ‘converse com seu médico e ele vai te explicar’. Então, no dia 31 de outubro de 2012, peguei o resultado do exame e levei até meu médico, que simplesmente olhou meus exames, jogou-os em cima da mesa me devolvendo e disse: ‘procure outro médico. Não posso mais cuidar de você porque você não pode ser mãe. Você tem hidrossalpinge bilateral’*. E eu achando que o problema seriam os ovários policísticos… Fiquei sem reação por alguns instantes até sentir um nó na garganta. Engoli seco, levantei e saí.

Quando cheguei lá fora, comecei a chorar e pilotei a moto tão rápido que não enxergava nada nem ninguém. Minha única vontade era morrer. Me revoltei contra tudo e todos, e quase acabei com meu casamento. Mas ele permaneceu ao meu lado e me reergueu.

Comecei, então, a pesquisar tratamentos e especialistas, fui a muitas palestras, em várias clínicas, até que eu conheci a IPGO. Lá comecei o tratamento de fertilização in vitro, mas antes tive que retirar as duas trompas porque elas estavam infeccionadas e se o líquido que elas continham caísse dentro do útero, isso poderia provocar um aborto.

Fiz a indução de ovulação, que é a primeira etapa da FIV, em novembro de 2013. A dosagem de hormônios foi alta para mim e tive a chamada hiperestimulação, o que esgotou meu organismo. Então, tivemos que congelar os embriões e adiamos a transferência.

Foram alguns longos dias até eu ficar bem para receber os bebês, que foram transferidos, lembro bem, no dia 10 de março de 2014. E onze dias depois, às 17 horas, recebi o resultado do Beta. Meu tão esperado positivo. Chorei por muitas horas. Muitas mesmo.

Afinal, eu tinha vendido o carro para poder fazer o tratamento e ainda precisava ir do interior, onde morava, até São Paulo em dias alternados para fazer o acompanhamento dos óvulos. Era muito cansativo e também tinha que ter grana! Meu marido tinha que sempre sair mais cedo ou faltar ao trabalho para me levar e dependíamos dos amigos e familiares para emprestar o carro. Também tinha o medo, a incerteza e todas as pessoas falando que era loucura fazer isso. Acabei pedindo no meu trabalho para ser mandada embora, para poder ficar mais tranquila. Parece que eu já previa que minha gravidez seria bem difícil.

Eu tive um descolamento de placenta e um hematoma, que provocou vários outros sangramentos. Fui levando a gravidez com repouso e muita medicação. Foi uma luta. Fui internada com 35 semanas de gestação, dois dedos de dilatação e contrações. No dia seguinte, à noite, o Davi entrou em sofrimento fetal e tive que fazer uma cesárea de urgência.

O parto foi horrível. Foi um susto de o médico entrar no meu quarto e dizer que eu tinha que fazer a cesárea de emergência porque meu filho estava sofrendo. Não podia esperar e bem naquela hora eu estava sozinha: meu marido tinha ido em casa pra resolver algumas coisas.

Quando ele chegou, eu estava deitada e já tinha tomado a anestesia. Aliás, não senti absolutamente nada, acho que por causa do medo. O Davi demorou pra nascer e foi assustador: eu sentia uma pressão em cima de mim e olhava meu marido, que estava com os olhos arregalados, mas não dizia o que estava acontecendo. Só depois de dois dias ele me contou que os médicos se debruçavam em cima de mim para fazer força porque diz que o Davi estava ‘escondido’.

Por cinco dias dormi sentada. Os três primeiros foram um pesadelo: eu sentia dor nas costelas, falta de ar e um cansaço terrível. Depois disso, o Davi precisou passar nove dias na UTI. Fiquei esgotada: eu ia para o hospital às 6:30 e só vinha embora quando eles me mandavam, tipo 22:00. Eu queria estar presente, mas lá no hospital não tem conforto, né?

No domingo eu estava no jardim do hospital e resolvi ir à capela com ele. Lá, mais uma vez, eu supliquei a Deus que não aguentava mais aquele lugar e nem deixar meu filho todos os dias lá e ir pra casa sem ele. Chorei muito com ele no colo. Mais tarde, a enfermeira disse que iria falar com a médica para eu poder dormir com ele no quarto.

Mas naquele dia a UTI estava bem agitada, com muitas intercorrências e nascimento de vários bebês prematuros. Às 20:50, a médica foi à UTI onde o Davi ficava e me chamou. Ela me disse: ‘mãe, vai arrumar suas coisas. Pode ir embora’. Eu paralisei e disse: ‘embora? Pra casa?’. Ela sorriu e disse: ‘sim, vamos, já é tarde e ele precisa descansar e não pode pegar friagem’. Eu abracei ela, a beijei no rosto, peguei tudo e enfiei dentro da bolsa correndo enquanto ela me dava alta. Foi um dia muito feliz”.

 

Patricia Vilas Boas Peixoto, 34 anos, é mãe do Davi, de 2 anos e 7 meses

 

*nota da editora: A hidrossalpinge nada mais é do que um acúmulo de líquidos nas trompas. Normalmente o tratamento para esse tipo de problema é a tentativa de desobstrução das trompas.


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